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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Mal-assombrado


Seu coração disparava quando sua mãe a conduzia pela calçada em frente daquele casarão. Abandonado, sua fachada descascada estava preta e via-se os pátios externos tomados pelo mato.

Mas, em sua fértil imaginação, não se encontrava desabitada. Era mal-assombrado. Aquele era o lar de todas as bruxas, monstros e fantasmas das histórias que ouvia da professora, da mãe e na TV.

Mesmo já adulta, não podia deixar de pensar naquele casarão quando lia alguns contos de Edgar Allan Poe.
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Estava em plena época de guerra contra a acne.

Sua melhor-amiga-para-sempre não apareceu no playground durante todo o fim-de-semana. Resolveu interfonar. Nem foi preciso, o porteiro lhe contou do falecimento do pai e da viagem de urgência da família.

Algumas vezes foi fazer companhia a sua amiga, já que esta não via mais graça em descer. Não se incomodava com as lágrimas, nem com as velas ou as janelas sempre fechadas e cortinas cerradas o que deixava o ar morno e úmido. O que a aflingia eram os sons de passos quando estavam todos quietos, as luzes que se acendiam ou apagavam sozinhas e aquela sensação de estar sendo observada por mais alguém.

Sempre tinha a impressão que se voltasse àquele apartamento, ia ver um fantasma.

Foi deixando de ir.

A amiga se mudou após alguns meses.

Nunca mais se falaram.
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Casarões abandonados e lares onde um dos moradores acabou de falecer são alguns dos lugares esperados para se ver fantasmas.

Mas em um homem? Aquilo foi inesperado. Mas ele era definitivamente um homem mal-assombrado.

Assombrado por um relacionamento que ainda não havia acabado em seu coração e sentimentos, por mais que dissesse o contrário.

Dessa vez, não fugiu. Escolheu enfrentar.

Nadou contra sua própria correnteza para tentar descobrir os peixes do fundo das águas.Emprestou seu ouvido, empregou sua paciência e tempo. Se enganou, sabendo que estava sendo enganada por si própria. Ela queria se enganar!

Mas sempre a assombração aparecia, arrastando correntes, derrubando copos, trazendo ventanias e confusão ao seu mundo.

Ele era um homem mal-assombrado.
Ela desejava ser um fantasma.

3 comentários:

Letícia disse...

Que legal seu conto....
gostei como escreve
bjos

visita o meu
http://leticiaturtle.blogspot.com/2010/11/economizar-ou-viver.html

Mah disse...

Eh...há vários tipos de fantastas e todos assombram igual..rs
Mas quero comentar mesmo é o post abaixo que me deixou chocada!!!
Que isso, se eu vou pra escola e vejo uma cobra desse tamanho faço um escândalo, afasto as crianças, chamo o bombeiro, bato nela com a bolsa, sei la, surto!kkkkkkkk
Mas a história que a senhora lhe contou, cá entre nós, é mais fábula do que as q vc escreve..rs Como é possível?
Mas Vanessa, adorei o blog, parabéns! E obrigada pelo comentário! A hora da estrela é tb um livro maravilhoso, leia Felicidade Clandestina se gosta da literatura de Lispector. E a peça está passando por vários estados, espero que vcs tb sejam presenteados com ela.
Bjão

Anninha disse...

Amiga! Passa no meu blog que tem selinho pra vc (no meu blog de mãe, rs). Beijos!