sexta-feira, 20 de novembro de 2009

XU


Por não saber lidar com o inteiro, dividi você em mil pedaços

e escondi cada fragmento em uma parte diferente da minha vida:

Seus olhos estão nos sorrisos de cada criança que encontro.

Sua pele, na areia das praias em que já estive.

Sua voz encontro nas comidas que como.

Suas mãos reencontro nas águas que me banham.

Seu cabelo nos frascos de perfume.

Seus pés, deixei em meu relógio.

Sua barba ainda está grudada em minha nuca.

Seus braços nos lençóis de minha cama.

(...)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Por volta das 7 da manhã


Acabou se maquiando excessivamente na tentativa que não percebessem seu estado de espírito. Se desconfiassem de alguma coisa, diria que achava que tava ficando gripada. E se perguntassem por Rafa, diria que, diria... Percebeu que não sabia o que responder caso lhe perguntassem.

O cheiro de café recém passado ao invés de lhe animar, dessa vez lhe embrulhou o estômago. Será a marca nova? Não, não havia ainda aberto a nova embalagem. Derramou o líquido escuro na pia. Se sentisse fome, desceria até a cantina.

Novamente conferiu sua roupa. Queria estar mais bonita que nunca, como compensação. Mas não queria levantar suspeitas, parecer diferente. Ela, que sempre reclamava de sua rotina, naquela manhã queria que sua vida continuasse a mesma.

Onde estaria Rafa àquela hora?

Conferiu sua bolsa mais uma vez, mas ao fechar a porta, sentiu que faltava algo. Olhou a bolsa de novo. Chaves, documentos, dinheiro, celular, maquiagem, agenda. O que esquecia, Deus?

Quando engatou a segunda marcha, que as lágrimas começaram a cair. No som, Chico. O ar gelado. E o assento do carona dolorasamente vazio.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Telminha e Zeca

Telminha e Zeca foram casados por 8 anos, após um namoro que logo virou noivado de 5 anos. Casaram porque era o correto a fazer, depois de tanto tempo. O apartamento já havia sido entregue pela construtora, mesmo!
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Uma pequena reforma no antigo vestido de noiva da mãe (afinal o vintage estava na moda), um pequeno estoque feito com meses de antecedência de ingredientes para docinhos e salgados (que foram feitos pelas tias durante 2 dias, como forma de presente de casamento), o bolo encomendado na melhor padaria do bairro, um padre que havia sido colega de sala na infância e muita boa vontade das amigas para decorar a igreja e um galpão alugado, possibilitaram a realização de um casamento simples e caloroso.
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No primeiro aniversário de casamento, Telminha resolveu fazer uma surpresa para Zeca. Pediu pra sair mais cedo do trabalho e passou a tarde no salão. Cortou, escovou, cacheou, depilou, limpou, escarnou, pintou, perfumou e maquiou tudo o que tinha direito. Quando ouviu o barulho da fechadura, correu prá sala vestida com a fantasia de oncinha que há uma semana havia comprado, num sexshop. Zeca arregalou os olhos e logo explodiu em gargalhadas, perguntando onde era o baile de carnaval.

Naquela noite, eles saíram: ele prá o estádio futebol para ver a final do campeonato com seus colegas de trabalho e ela prá casa de sua melhor amiga prá chorar.

Uma semana depois, Zeca perguntou se não estava perto o aniversário de casamento deles.

Telminha se convenceu que casamento era "isso mesmo", mas ainda sonhava em ser o objeto de "amor incondicional" de alguém. Por isso, resolveu engravidar. Quando mostrou o exame positivo para Zeca, disse que não dava mesmo prá confiar em pílulas.

Aquela gravidez ocupou seu coração, seus pensamentos e seu tempo. Aquela dependência daquela bebê cheio de dobrinhas que só sossegava em seu peito parecia ser seu sonho materalizado. E para sua bebê não importava como estava sua unha, seu cabelo ou se estava depilada. Sua bebê a amava e precisava dela. Zeca passou a ocupar o papel de motorista, em sua vida.

Zeca via aquela mulher cada vez mais relapsa com a aparência, vestindo aquelas camisolas enormes de algodão que pareciam serem de sua avó e se perguntava por onde andaria aquela fantasia de oncinha que Telminha vestiu certa vez. Ela ficou engraçada de tão vulgar, mas sabe que até tava mesmo gostosinha...

Zeca amava muito Biazinha, mas não aguentava mais tanto de papo de fraldas, leite e consultas pediátricas. Já o seu time... esse só lhe dava alegrias. E nada melhor que sair com os amigos prá assistir á algum jogo num bar e depois discutir cada lance.

Mas Biazinha cresceu, virou Bia. Foi prá escolinha, o que foi um baque prá Telminha, pois esta percebeu que sua filha conseguia sobreviver a algumas horas sem ela. Sem que a mãe percebesse, Bia aprendeu a ler e passava horas lendo e relendo seus livrinhos. De repente, começou a pedir mais e mais prá ir brincar na casa de alguma vizinha de sua idade. E voltava contando novidades de um mundo no qual Telminha não tinha qualquer participação. Cadê aquela dependência, aquele "amor incondicional"?

Prá completar, Zeca resolveu assinar tv a cabo prá assistir jogos de futebol com times que Telminha nunca havia ouvido falar. E ainda convidava um monte de amigos prá assistir tv, beber e falar palavrão até a madrugada enquanto Telminha fazia tira-gostos, pegava cervejas e lavava pratos e copos. Telminha assumiu o papel de empregada na vida de Zeca.

Ela nem se surpreendeu quando atendeu o celular do marido que tomava banho e ouviu um meloso: "Amooooooorrr, você pode falar com sua Potoquinha?" Telminha entregou o aparelho para Zeca no banheiro dizendo que era Potoquinha e voltou a catar o feijão. Não chorou e nem sentiu raiva.

Toda a família tentou convencer ao casal de voltar atrás na decisão do divórcio. "Pense na filha de vocês, que é apenas uma criança!" Já Bia estava feliz por que teria dois quartos a partir de então. Não estava acostumada a ver os pais como casal, mesmo!

Telminha resolveu que seu "amor" tinha que ser ela mesma. Entrou na academia e prestou vestibular numa faculdade particular perto de sua casa. Com as novas colegas de administração voltou a frequentar o salão e até passou a fazer drenagem linfática. A mudança estética e na auto-estima era notável! Logo começou a sair com um colega de classe, 15 anos mais jovem.

Numa tarde de sábado, enquanto passeava com Bia e a Potoquinha (que na verdade se chamava Eliete), Zeca mal pôde acreditar em seus olhos ao encontrar casualmente Telminha. Nunca a tinha visto tão bem, daquele jeito! Telminha quis fugir, fazer de conta de que não o tinha visto. Afinal, estava com o Douglas e sua intuição que falou que aquela loira que mal devia ter 25 anos, era a Potoquinha. Mas ouviu a filha chamando por ela. O jeito era enfrentar.

Ela tentou ser o mais natural possível, principalmente ao apresentar o Douglas. Zeca estava nervoso e prá disfarçar, não largou as mãos de Eliete e Bia prá que as suas não o traíssem. Telminha encolheu a barriga e empinou o peito, abraçando Douglas. Zeca tentava não ficar medindo aquele moleque, se perguntando em que berçario Telminha devia tê-lo achado.

Ela não podia se cuidar, se vestir bem e ficar bonita daquele jeito quando eram casados?

Ele não podia ser carinhoso e ficar de mãos dadas com ela ao passear pelo shopping, quando eram casados?

Aquela vaca!

Aquele cachorro!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Jogo da Verdade - Parte V

Ao abrir a porta, uma criança pulou em seu colo.
- Tiaaaaaa! Você ainda tá aqui!
- Claro que sim, meu amor!
- Bom dia, Tina!
O rosto dela contraiu. Como ele tinha coragem de chamá-la assim? Nunca havia lhe dado intimidade para isso. Cínico!
- Bom dia, Benedito.
Virou as costas, com o sobrinho no colo, deixando o rapaz rindo na entrada do apartamento. Foi prá cozinha como se intimando a irmã.

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O visitante fechou a porta, sentou-se no sofá e ligou a TV. Agia como se nunca tivesse decidido que não iria mais viver ali. Marília, ao chegar na sala e ver a cena, respirou fundo prá não reclamar. Não queria brigar no dia do aniversário de Edgar.
Então, sentiu o cheiro. Aquele perfume “Minotauro”. Resista!
-Pensei que iria trazê-lo só no fim da tarde.
Sem tirar os olhos da TV, onde passava um desenho animado, respondeu.
- Algum problema nisso?
- Você não passou nem três horas com o menino.
- E vou passar mais! Só que aqui.
- Aqui?
- É, sim! – Tirou os olhos da TV e a encarou - Na casa que minha família comprou prá nosso filho crescer. .
- E que você abandonou dizendo que era prá nosso filho.
- E eu falei o contrário?

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Andou de um extremo a outro da sala, tentando se acalmar prá evitar uma discussão.
- Hoje é aniversário dele, Tito! Porque você não passa o dia com ele passeando?
- Porque eu e ele queremos passar aqui, com você que é a mãe dele.
- Só que... só que... – respirou fundo. - Eu e Martina estávamos preparando a festinha surpresa prá ele. Prá quando ele chegasse, encontrasse tudo pronto!
- Ele sabia que haveria a festa. Ele quem me contou. Pronto, vamos ajudar!
- Você quer ajudar? Quer mesmo? Pague a pensão em dia. Só essa ajuda que eu quero de você.
- Lá vem você com sete pedras na mão! Você bem sabe que eu não pago no dia, mas eu pago. Eu vivo de comissão, baby, esqueceu?

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Marília tentou voltar prá cozinha quando viu Tito levantando-se e andando em sua direção. O perfume... Todo lindo! Resista! Mas ele foi mais rápido e a abraçou pelas costas.
- Má... Você é má comigo! A gente não podia ainda estar vivendo aqui juntinho, como uma família? Ai, qualquer trocadinho...
- Me solta, Tito!
- que eu ganhasse ia chegar a sua mão – sussurrando no ouvindo – todo dia!
- Me larga!
- Não. Você não quer isso, não. Eu sinto isso! – e a apertou mais forte contra o corpo.
- Tito, me larga que eu preciso terminar os salgados da festa!

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Ao consegui soltar-se, consertou a blusa e encarou seu ex-marido.
- Muito bem! Você quer ajudar! Então fique olhando o menino enquanto eu e Martina terminamos, que cozinha não é lugar de criança.
- Tem alguma gelada aqui?
- Nem gelada, nem quente.
- E você vai servir o que na festa?
- Refrigerante. Aniversário de criança se serve refrigerante.

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Foi à cozinha e voltou com o filho nos braços. Ao colocar a criança no colo do pai, perguntou:
- Por falar nisso, como foi que você entrou no prédio, hein?
- Usando minha chave do portão.
-Ah! Usando sua chave! Óbvio!
Ao caminho da cozinha, Marília teve uma idéia e retornou.
-Você poderia me emprestar essa chave?
- Prá quê? – perguntou Tito intrigado.
- Hum... Martina precisa descer prá comprar um ingrediente e o interfone está quebrado.
- E a sua chave?
- Vamos lá, Tito! – estendendo a mão.
Dando uma risadinha, Tito retirou a chave do chaveiro.
- Obrigada!

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Na cozinha, contou seu plano aos cochichos para a irmã.
- Desça e finja que vai comprar alguma coisa. Aproveite e compre mesmo, que vai dar na vista se ele te ver sem nada, na volta. Compre... leite moça e nescau. Na volta, não devolva a chave prá ele. Eu vou ficar prá mim.
- E ele não vai sentir falta da chave, Mari? Pense! Se ele até hoje anda com ela. É capaz de ter até daqui da porta.
- É mesmo! Mas eu penso isso depois. O importante é “esquecermos” de devolver a chave prá o Tito. Agora, vá! Mas não demore que ainda tem muita coisa prá fazer.



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Capítulo especialmente dedicado ao Ronca Ronca e as fofuxas e fofuxos que conheci através do programa!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

MEME e justificativa.

Olá, gente!

Eu sei que tô demorando prá terminar o "Jogo da Verdade", mas juro que em breve eu continuo e termino!

Algumas pessoas perceberam por algumas pistas que a história se passa há alguns anos e é verdade. A "novelinha" irá ter uma passagem de tempo pro presente.
Logo, logo, assim que terminarem minhas férias, eu volto a contar a história de Martina, Marília e Ramon.

Enquanto isso...

Um dos meus blogs favoritos é o Se conselho fosse bom, da Iaiá Gabriela. E como eu, ela ama MEMEs. E me passou um bem interessante que é assim:

Regras:
1. Agarrar o livro mais próximo.
2. Abrir na página 160.
3. Procurar a 5ª frase completa.
4. Colocar a frase no blog.
5. Não escolher a melhor frase nem o melhor livro!!!(Utilizar, mesmo, o livro que estiver mais próximo.)
6. Passar a 10 pessoas.

Bem, meu computador é perpendicular a minha estante de livros. Isso faz com que os livros fiquem + ou - a mesma distância de mim. Mas o livro que primeiro bati os olhos foi "Romane d'A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta", mas conhecido como "A Pedra do Reino" e que virou mini-série na Globo. O seu autor é Ariano Suassuna.

A frase é: "Era uma “data” de terras sertanejas de serra, frias, altas, secas, mas excelentes para a criação."

AS 10 pessoas que escolho são as 10 primeiras que comentarem nesse post.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Jogo da Verdade - Parte IV

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Não havia mais vestígios da chuva do dia anterior. A rua estava seca, o tempo estava quente e o sol radiante. Só o cabelo de Martina estava “tempestuoso”.
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Como iria passar parte do dia com a mão na massa, literalmente, resolveu fazer um nero no cabelo. Como Marília não tinha grampos suficientes e nem ela havia trazido os seus, fez um rabo de cavalo e saiu prá comprar.
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Não foi difícil encontrar uma loja de produtos prá cabelo. Há várias com todo tipo de shampoo, creme e máscara prá cabelo rebeldes, com frizz, estressados, desidratados, tinturados, alisados, fracos, quebradiços e todos outros tipos de problema e característica que um cabelo crespo pode ter. Não se esqueça que essa história ocorreu em Salvador. Aproveitou e comprou um creme com “coquetel de vitaminas”. Bem, pelo menos era um creme colorido: rosa, verde, amarelo e branco, em camadas no pote transparente.
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No apartamento 203, Ramon queria trocar seu (inexistente) reino por um par de meias “usáveis”. Nem precisava estarem limpas, na verdade. Bastava parecerem que haviam sido lavadas. Mas também, se não achasse, ia no cesto de roupa suja e pegava qualquer uma! Ou ia sem meia!
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Ao chegar ao portão do prédio, Martina lembrou que o interfone ainda estava quebrado e havia, prá variar, se esquecido de levar o celular. “Burra!”
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Se tivessem combinado, não teria dado certo:
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- Tá perdida de novo?
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A imagem daquele rapaz lhe veio dessa vez com um perfume gostoso. Conhecia aquele cheiro de algum lugar. Que perfume era aquele mesmo? Tava uma graça com os cabelos molhados num topetinho arrepiado. Camisa pólo, bermuda cargo. Só achou estranho o tênis sem meia.
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- Não!
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-Ah! É porque seu lugar é ai fora do portão, né?
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“Que menino mais idiota!”
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Antes ele tivesse jogado logo um balde de água fria. O meio sorriso virou bico que Ramon percebeu. Até com raiva a menina fica uma graça. Pena que hoje estava com o vestido mais comprido que no dia anterior. Sentiu vontade de desamarrar aquele bico com um beijo
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- Desculpe a brincadeira, moça! – abrindo o portão e deixando-a entrar antes de sair. -Ce tá indo em que apartamento?
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- 303.
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- Ah, beleza! Depois então a gente se fala. Valeu! - E saiu correndo.
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Ainda estava com raiva. Era a segunda vez que tirava onda com a cara dela. Será que é porque ele viu que ela tava olhando ele no açougue? Tinha que aprender ser mais discreta, caramba! O cara só devia achar que ela tava afim. Que idéia!
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E o que ele quis dizer com “depois”? Seria um “depois” hipotético ou real? Será que ele estaria no aniversário? Não era possível! Devia ter coisas mais interessantes para fazer num sábado a noite. Ele tava tão gatinho! Com aquela cara... vixe... Que nada! Além do mais, era capaz de só voltar no dia seguinte, de nunca mais vê-lo.
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- Sabe aquele cara que te falei ontem que abriu o portão prá mim?
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- Hum... O que tem?
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- Ele quem abriu de novo o portão prá mim.
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- Por que você não levou a chave?
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- Ia te deixar sem chave?
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- Mas você não foi rapidinho?
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- É.
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Marília tirou os olhos da massa do pastel prá olhar a irmã. Martina devia tá querendo lhe falar mais alguma coisa. Mas o que? O menino abriu o portão de novo. Pronto! Da próxima vez ela leva a chave. Mas, ora! Devia ser só isso.
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Martina era muito compenetrada, direita. Não iria sofrer os tropeços que sofreu. Além disso, tava muito nova: 16 anos. Tinha mais é que estudar, pensar no futuro, ser independente. Sabia que a irmã tinha medo que lhe acontecesse o mesmo. Percebeu o olhar assustado no dia anterior. Talvez, por causa disso, até tivesse um pouco de medo de homens. Nunca havia falado de namoros e meninos, mesmo quando provocada. Era melhor assim!
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Melhor cuidar dos pastéis, viu! Ao pegar a tigela com frango desfiado, sua cabeça foi invadida por ecos do passado, que considerava esquecidos. Quis lutar, mas a lembrança, inexplicavelmente, foi mais forte.
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- É esse?
- Hum... não!
- É esse?
- Não.
- E esse?
“Será que Chele apertou mesmo meu olho?”
- Fala logo! É esse?
“Ai, Meu Deus? E agora?”
- É...
- É?
“Agora sim ela apertou! Mas... o que será que Chele quer que eu faça? Será que é prá eu confirmar ou dizer que não?”
- É.
-Pêra, uva, maçã ou salada mista?
“Um aperto na hora de salada mista. Será?”
- Hum?
- Nossa! Hoje a Mari tá toda lesa! Acorda! Pêra, uva, maçã ou salada mista?
“Outro aperto no salada mista. Mas... e se Chele tiver me sacaneando?”
- Saaaaalada mista.
Risadas e gritaria. “Ain... porque eu fui dizer salada mista?”
Mesmo depois de Chele tirar as mãos dos olhos, ela ainda estava de olhos fechados. Que medo de abrir e não ser o Tito! Que medo de ser o Tito! Ouviu risadas e percebeu que tava fazendo papel de boba. Abriu os olhos e não pôde conter o sorriso de vergonha e felicidade. Com certeza todos ao redor ouviam as batidas de seu coração.
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- Não é melhor fazer logo os brigadeiros?
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- ...
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- Marília!
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- Ãhn?
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- Tava dormindo? Os brigadeiros. É melhor fazer logo prá esfriar até a hora da festa.
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- Ah, faça!
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Melhor cuidar dos pastéis e deixar o passado no seu lugar: no passado.
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Martina havia parado de fazer conjecturas sobre o tal rapaz do 2º andar. Mas que ele tava bem cheiroso, tava! Mas era grosso! Tirou onda com a cara dela! Mas agora não pensava nisso.
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Depois de enrolar, ficou admirando e sentindo o cheiro dos brigadeiros recém-feitos. Lembrou-se das festinhas que ia, quando criança. Música, bexigas e brigadeiros, o trio perfeito. Enquanto a mesa de doces não era liberada, brincava, mas com o olho comprido prá cima dos brigadeiros. Que alegria comê-los! Sentir aquele sabor de chocolate, o doce derretendo na boca e o granulado descendo coçando a garganta.
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A buzina tocou, despertando as irmãs do passado e trazendo-as de novo ao presente.
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- Má, atenda prá mim, por favor. Deve ser os quibes da Dona Gal.
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E quibes andam sozinhos? Quis perguntar, mas levantou-se, limpou as mãos no pano que estav no seu ombro e se dirigiu a porta.
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Quando olhou pelo olho-mágico, tomou um susto. Ao som de outra buzinada, retirou as pressas os grampos do cabelo, jogando-os no chão, e tentou pentear com as mãos.
Respirou fundo e abriu a porta.
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(Continua)

domingo, 7 de dezembro de 2008

Jogo da Verdade - Parte III


Passos apressados e rosto ainda queimando. Não sabia se era vergonha, raiva ou uma mistura dos dois. “Esquece, Martina. Até a noite de hoje eu já vou ter esquecido.”
Sentiu de novo uns pingos, mas já estava na frente do prédio onde mora a irmã.
Aquele era um pequeno conjunto habitacional com prédios de três andares, sem guarita. O medo fez com que todos fossem os blocos fossem gradeados, com interfones prá solicitar o acesso.

303. Quando Martina apertou o botão referente ao apartamento da irmã, não ouviu o barulhinho característico. Mas, nem ligou e esperou. Cerca de um minuto depois, apertou de novo. E mais uma vez após mais um minuto. Olhou prá cima, pras janelas, mesmo sabendo que o apartamento da irmã é voltado pros fundos. Mas queria alguma ajuda. “Ai, meu Deus! Cadê a Marília?” E os pingos ainda caindo do céu. Tentava ao máximo se proteger, enquanto mais uma vez apertava o botão para o apartamento da irmã.

Estava procurando o celular na bolsa quando sentiu alguém se aproximando. Assustada, apertou a bolsa no corpo com os braços e arregalou os olhos.

- Calma, que eu não vou te assaltar. – disse rindo.

O coração quase saiu pela boca. Era o rapaz do açougue.

- Não, não...

“Essa mina ta uma graça de rosto vermelho. Mas é muita sorte essa minha, mesmo.”

- Tá perdida?

- Não... – porque nunca conseguia ordenar os pensamentos quando ficava nervosa?
Porque ela tava nervosa, mesmo?

- Ah! Então você já se achou! – rindo, destrancou o portão e entrou no prédio.

“Esse menino tá tirando onda com minha cara? Ele tá rindo de mim. Nem vou perguntar nada prá esse idiota. Ai! Será que vai chover de novo? Eu queria pelo menos entrar no prédio.”

“Chamo ela prá se proteger da chuva aqui no prédio? E se ela levar a mal meu oferecimento?”

“Vou só chamar Marília uma vez pelo interfone. Se não atender, eu ligo e vou embora. Era prá ela estar em casa!”

- Moça, nem tente que o interfone tá quebrado.

- Quebrado? – com o braço ainda esticado no ar.

- É! Faz já uns dois dias. Porque você não entra e vai diretamente ao apartamento que você quer?

“Pensei que nunca iria oferecer.”

- Ah, tá! Obrigada!

Mal esperou ela entrar, Ramon subiu correndo as escadas. Lembrou que a cozinha ainda estava um caos e a mãe chegaria em poucos minutos. Não desejava naquela semana arranjar confusão em casa.

Enquanto subia as escadas, Martina ouvia o barulho e o eco das passadas de Ramon acima de sua cabeça. Estava a alguns degraus do segundo andar quando viu a porta do 203, logo abaixo da casa da irmã, se fechar ruidosamente.

“Nossa, ele mora aqui! Que coincidência. Marília deve conhecer.”

- Menina, que demora foi essa? Você tá linda! Entrou como no prédio? – falava Marília entre abraços e beijos no rosto da irmã caçula.

- Eu tava lá embaixo apertando o interfone feito uma doida. Ai, apareceu um rapaz e abriu o portão.

-Um rapaz? Que rapaz?

- Ah, um moreninho... Ele entrou no apartamento aqui embaixo.

“Deve ser o Ramon ou o Pablo. Não! A essa hora em casa, é o Ramon.”

- Que chuva, hein? Nem trouxe sombrinha.

- Mas você vê que tá fazendo sol. E nem abafou o calor. Semana passada...
Martina nem prestou mais atenção no que Marília falava, ao olhar prá irmã e constatar o quanto estava acabada. Devia ter o que? 27 anos? Parecia ter uns 10 anos a mais.”

-... de você! – e olhou a irmã.

Vendo Marília lhe encarando, saiu do transe.

- Ãhn?

- Fale de você!

-Ah, eu to bem! Estudando, vendendo minha Avon... Cadê Edgar?

- Daqui a pouco ele chega. Ai, você vai ver o amor de sua vida.

- O que é isso Marília? Ciúmes?

- Que nada! Já estou conformada com esse amor roxo de vocês dois! Olha, ele ainda não sabe da surpresa, não! Então, boca piu!

- Pode deixar!

- É tão bom te ver!

- Eu também acho! Eu também acho!- falou abraçando bem forte a irmã.

(continua...)