Desde 2006 servindo algumas lasanhas e muitas abobrinhas.

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domingo, 7 de dezembro de 2008

Jogo da Verdade - Parte III


Passos apressados e rosto ainda queimando. Não sabia se era vergonha, raiva ou uma mistura dos dois. “Esquece, Martina. Até a noite de hoje eu já vou ter esquecido.”
Sentiu de novo uns pingos, mas já estava na frente do prédio onde mora a irmã.
Aquele era um pequeno conjunto habitacional com prédios de três andares, sem guarita. O medo fez com que todos fossem os blocos fossem gradeados, com interfones prá solicitar o acesso.

303. Quando Martina apertou o botão referente ao apartamento da irmã, não ouviu o barulhinho característico. Mas, nem ligou e esperou. Cerca de um minuto depois, apertou de novo. E mais uma vez após mais um minuto. Olhou prá cima, pras janelas, mesmo sabendo que o apartamento da irmã é voltado pros fundos. Mas queria alguma ajuda. “Ai, meu Deus! Cadê a Marília?” E os pingos ainda caindo do céu. Tentava ao máximo se proteger, enquanto mais uma vez apertava o botão para o apartamento da irmã.

Estava procurando o celular na bolsa quando sentiu alguém se aproximando. Assustada, apertou a bolsa no corpo com os braços e arregalou os olhos.

- Calma, que eu não vou te assaltar. – disse rindo.

O coração quase saiu pela boca. Era o rapaz do açougue.

- Não, não...

“Essa mina ta uma graça de rosto vermelho. Mas é muita sorte essa minha, mesmo.”

- Tá perdida?

- Não... – porque nunca conseguia ordenar os pensamentos quando ficava nervosa?
Porque ela tava nervosa, mesmo?

- Ah! Então você já se achou! – rindo, destrancou o portão e entrou no prédio.

“Esse menino tá tirando onda com minha cara? Ele tá rindo de mim. Nem vou perguntar nada prá esse idiota. Ai! Será que vai chover de novo? Eu queria pelo menos entrar no prédio.”

“Chamo ela prá se proteger da chuva aqui no prédio? E se ela levar a mal meu oferecimento?”

“Vou só chamar Marília uma vez pelo interfone. Se não atender, eu ligo e vou embora. Era prá ela estar em casa!”

- Moça, nem tente que o interfone tá quebrado.

- Quebrado? – com o braço ainda esticado no ar.

- É! Faz já uns dois dias. Porque você não entra e vai diretamente ao apartamento que você quer?

“Pensei que nunca iria oferecer.”

- Ah, tá! Obrigada!

Mal esperou ela entrar, Ramon subiu correndo as escadas. Lembrou que a cozinha ainda estava um caos e a mãe chegaria em poucos minutos. Não desejava naquela semana arranjar confusão em casa.

Enquanto subia as escadas, Martina ouvia o barulho e o eco das passadas de Ramon acima de sua cabeça. Estava a alguns degraus do segundo andar quando viu a porta do 203, logo abaixo da casa da irmã, se fechar ruidosamente.

“Nossa, ele mora aqui! Que coincidência. Marília deve conhecer.”

- Menina, que demora foi essa? Você tá linda! Entrou como no prédio? – falava Marília entre abraços e beijos no rosto da irmã caçula.

- Eu tava lá embaixo apertando o interfone feito uma doida. Ai, apareceu um rapaz e abriu o portão.

-Um rapaz? Que rapaz?

- Ah, um moreninho... Ele entrou no apartamento aqui embaixo.

“Deve ser o Ramon ou o Pablo. Não! A essa hora em casa, é o Ramon.”

- Que chuva, hein? Nem trouxe sombrinha.

- Mas você vê que tá fazendo sol. E nem abafou o calor. Semana passada...
Martina nem prestou mais atenção no que Marília falava, ao olhar prá irmã e constatar o quanto estava acabada. Devia ter o que? 27 anos? Parecia ter uns 10 anos a mais.”

-... de você! – e olhou a irmã.

Vendo Marília lhe encarando, saiu do transe.

- Ãhn?

- Fale de você!

-Ah, eu to bem! Estudando, vendendo minha Avon... Cadê Edgar?

- Daqui a pouco ele chega. Ai, você vai ver o amor de sua vida.

- O que é isso Marília? Ciúmes?

- Que nada! Já estou conformada com esse amor roxo de vocês dois! Olha, ele ainda não sabe da surpresa, não! Então, boca piu!

- Pode deixar!

- É tão bom te ver!

- Eu também acho! Eu também acho!- falou abraçando bem forte a irmã.

(continua...)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Jogo da Verdade - Parte II

Parte I está logo abaixo deste post.
Pisando aqui e acolá. É assim que se anda pelas ruas de Salvador quando se está chovendo: desviando das poças de água e da água jogava prá calçada pelos carros. E quando se tratava de chuva e poça de água, o Cabula é generoso.

Para a água que vem do céu, guarda-chuva, ou sombrinha de corações coloridos como era o caso. E prá a água que vem de baixo e dos lados? Nem adianta calça ou tênis, pois é pedir prá ficar com a roupa ou o sapato molhado, o que é ótimo prá pegar uma gripe daqueles que te derrubam uma semana! Além disso, não estava frio, muito pelo contrário! Aquela chuva até que era bem vinda prá acabar com o mormaço que amolece até as mais resistentes das criaturas.

Pisando aqui e acolá, aqui e acolá, aqui e acolá. Tentando molhar o mínimo possível dos pés na havaiana branca. “Por que eu não vim com outro chinelo? Dá mó trabalho de lavar essa, ô cabeça!”

Entrou, ainda de sombrinha aberta sobre a cabeça, no açougue. Quase acertou a testa de uma garota que estava no meio da entrada.

-Oh, desculpa aê!

Mas queria ter dito: “Isso lá é lugar de ficar? Saia do meio do caminho, mulher!” As pessoas se ocupam dos espaços como se fossem os donos. E você que tem que desviar das majestades, caso contrário tem briga.

Martina quis xingar, afinal respingou umas gotas da chuva em seu cabelo. Quis mandar o cara olhar por onde andava. Podia ter acertado o olho dela! E aí? Ia pagar o tratamento? Mas ela não estava em seu bairro. As coisas andam num rumo que quando pisam no seu pé, você ainda tem que pedir perdão. Educação virou um caso de sobrevivência!

- Foi nada, não. – tentou falar no tom mais simpático possível.

Ramon nem a ouviu. Seguiu prá o balcão, já gritando pela Dona Zuza.

-O que é isso, menino? Ainda não to surda, não!

- Oh, tia. Me vê aê meio quilo de carne moída.

-De qual carne, menino?

- Ah, sei lá!

Como uma pessoa vai comprar uma coisa que não sabe? Martina virou-se prá dentro do açougue olhando prá o rapaz, que estava de costas prá ela, não acreditando.

- Minha mãe vai fazer quibe, tia. Então, é carne moída prá fazer quibe.

-Então, aprenda, menino: é patinho. Meio quilo, né? Espera que vou moer.

Enquanto esperava pela carne, Ramon assoviava a música que estava ouvindo a pouco em casa. Olhava a vitrine de carnes, mas pelo vidro percebeu que aquela garota que ele quase acertou com a sombrinha estava olhando prá ele. Certamente estava esperando a chuva passar. “Gostosinha! Cabelos lisos, meio bagunçados. Deve ser natural, já que não está reto feito uma parede, como fica o cabelo de minha mãe quando ela alisa.”

“Que menino mais doido! Olha a sombrinha de corações! Deve ter pegado a primeira que viu pela frente, sem se preocupar com o que os outros iam pensar. E nem sabia que carne era prá comprar. Agora, ta olhando as carnes como se fosse roupa. Menino sem-noção! Esse aí deve viver a vida sem que se preocupem com o que pensem dele.” Enquanto pensava, sorria.

Então, viu que o rapaz também sorria prá ela pelo vidro da vitrine das carnes. Virou-se prá a entrada do açougue bruscamente, de vergonha. “Ele viu que eu tava olhando prá ele.” Só então reparou que a chuva havia passado. Saiu quase que correndo.

Ramon se deliciou quando ao virar o vestido da garota deu uma leve levantada, revelando a lateral e a parte de trás da coxa esquerda. Inconscientemente virou-se na direção dela, pôde perceber pelo desenho da calcinha no vestido, que era pequena. “Safada! Pena que saiu correndo!”

(continua...)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Jogo da verdade - Parte I

Essa é uma história que me contaram, daquelas que aconteceram com a sobrinha da vizinha da secretária do avô da namorada do irmão mais velho da melhor amiga da dona do salão onde faço minha unha.

Numa tarde tão ensolarada começou repentinamente a chuviscar. Faltava menos de cem metros prá chegar ao seu destino. Porém, a moça, coitada, tinha feito escova no cabelo naquela manhã. Tanto tempo esperando, lavando o cabelo naquela cadeira tão desconfortável prá o pescoço, tendo o cabelo puxado repetidas vezes com tanta força que só faltavam arrancar o couro cabeludo, as orelhas queimadas pelo calor do secador e o dinheiro gasto, não podiam ser desperdiçados assim, à toa! Martina, esse é o seu nome, olhou em volta.

-Ai, meu Deus! – com as mãos, de dedos esticados, à cabeça tentando, em vão, proteger o cabelo daquela água.

Entrou na primeira porta comercial que viu aberta. Era um açougue. O cheiro concentrado de carne somado às moscas e ao calor embrulhou o estômago daquela jovem. Será que não era melhor enfrentar o chuvisco? Afinal, tava tão fraquinho e a casa da irmã estava tão perto! “Nããããão! A escova!”

O chuvisco ficou mais forte, dando pistas que realmente iria chover. Mas nada muito preocupante, já que essas chuvas de verão vão embora como vêm: repentinamente. Por isso não cogitou ligar prá casa de sua irmã. Por que ela nunca carregava sombrinha?

Enquanto isso, Ramon procurava o guarda-chuva. Estava chovendo, mas ele não tinha muita escolha, ao não ser sair assim mesmo! Desde manhã que a mãe havia lhe pedido que comprasse carne moída. Mas foi fazendo uma coisa, foi fazendo outra... E protelando a hora de ir. Pois faltavam menos de uma hora para que sua mãe retornasse do trabalho e era melhor ele sair logo prá comprar as carnes. Caso contrário, ouviria durante uns bons quatro dias o quanto ele era preguiçoso e não colaborava com as tarefas em casa. “Antes enfrentar a chuva!”

Nada do guarda-chuva! Mas como, se ontem mesmo ele havia visto pendurado no antiquado porta-chapéus, na sala?

Acabou encontrando no quarto da mãe uma sombrinha lilás com corações coloridos. Que vergonha! Sair com essa sombrinha tão feminina? Mas, havia escolha? Era isso ou nada! Isso ou a chuva! Como se sombrinha ou guarda-chuva algum pudesse mantê-lo completamente seco.

-Ah, véi! Tomara que ninguém me veja!