Desde 2006 servindo algumas lasanhas e muitas abobrinhas.

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

As duas mãos ocupadas.

Na lanchonete não tinha canudos, por isso voltei à seção de frios com a lata de refrigerante na mão e o copo na outra. Não demorei para localizar minha amiga escolhendo queijos

Rindo, levantei os dois braços até a altura dos olhos para mostrar que estava com as mãos ocupadas, não poderia ajudá-la. A lata numa mão, o copo na outra. Quando olhei para as minhas mãos, lembrei... Fui pega tão desprevenida! 

Um copo numa mão, uma garrafa de água na outra. Ou não seria água? Será que era mesmo um copo e uma garrafa? Com certeza as duas mãos ocupadas. Um gole no copo seguido de um gole na garrafa... Ou seriam uma garrafa e uma lata? Um gole num seguido de um gole no outro. Parece que foi ontem, mas já faz muito tempo. As duas mãos, cada uma segurando um tipo de bebida. Em qualquer bar que tocasse rock no Rio Vermelho. 

Curioso lembrar disso agora. Curioso pensar nele assim. Foi tão inesperada essa lembrança, que conseguiu driblar as barreiras que construí entorno de tudo que remete à ele. E eu estava conseguindo até então. Até então, quando me vi com as duas mãos ocupadas: uma lata numa mão e um copo na outra. 

As duas mãos ocupadas. Uma bebida, outra bebida. Um gole de um lado, outro gole no outro. Essa imagem ficou em replay contínuo na minha mente. 

Senti uma grande saudade! Queria que naquele momento ele aparecesse inesperadamente de um corredor daquele supermercado. Fiquei na vontade...

Aquele sentimento e naquelas recordações faziam meu coração arder, enquanto fingia prestar atenção nas reclamações de minha amiga sobre o preço das frutas.


domingo, 30 de outubro de 2011

Maior e Pequeno


-Eu caí! Tô toda ralada! – alguém atrás de mim gritou.

Estava no banheiro de um shopping, lavando as mãos, quando ouvi o lamento choroso. Olhei em direção da voz. Aparentava ter uns 25 anos e estava com dois meninos, aparentando respectivamente 1 e 2 anos. Estava com uma das pernas da calça de strecht puxada até acima do joelho sangrando, que tentava lavar com as mãos em conchinha. Percebi que um dos seus braços também estava ferido.

-Olha só prá isso! Oh, moça, me ajude!

-Nossa! Como foi isso? – uma senhora, mais solícita que eu, aproximou-se.

- Esses meninos, moça... Eu tava subindo a escada rolante segurando a mão do Pequeno, quando vi que o Maior havia ficado prá trás. Corri na escada e peguei o menino, mas ai eu vi que o Pequeno ficou sozinho, quando corri prá pegar, eu cai. Nem sei como foi! Quando vi, tava no chão com os degraus da escada raspando meu joelho.

-E os meninos? – perguntava a senhora procurando band-aid na bolsa.

Resolvi também ajudar e passei a procurar curativos também na minha bolsa.

- A sorte foi que um senhor pegou os meninos e me ajudou a levantar.

- Nenhum segurança viu? – perguntei.

-Acho que não. Senti tanta vergonha!

Estávamos tão concentradas ouvindo e procurando curativos que, pelo menos eu, já havia até esquecido que os meninos estavam lá. Quando ouvi a voz de outra mulher:

-De quem é esse menino que está escalando a pia? Olhem seus filhos!

Era o Maior que estava já praticamente em cima da pia. A mãe correu para pegá-lo, mas logo percebeu que o Pequeno não estava por perto. Ela largou o menino e saiu do banheiro gritando:

-Meu bebê! Meu Pequeno sumiu! Meu filhooooo...

O Maior bem que quis correr atrás da mãe, mas a senhora que estava ajudando a moça anteriormente o segurou.

-Esse menino vai acabar se perdendo também. É melhor segura-lo, que ela não aparenta estar muito bem, não.

Do banheiro se ouvia a gritaria da mulher do lado de fora.

Deu-me um clique e procurei o Pequeno dentro das cabines do sanitário. Dito e certo! No terceiro encontrei-o com a mãozinha mexendo na água do vaso. Levei-o pela (outra) mão para a parte das pias onde estava o Maior.

E ficamos eu e a senhora com o Maior e o Pequeno, pensando no que fazer.

Entrou a mãe acompanhada de um segurança e uma funcionária que aparentava ser da limpeza.

- Eles estão aqui! –a mãe gritou. – O meu Deus! Eu estou passando por tratamento de depressão, minha mãe está internada, o pai das crianças...

- Se acalme senhora! – falou o segurança. – Agora vamos lá na enfermaria.

A funcionária de uma vez só pegou cada menino num braço.

-Deixa que eu levo essas crianças para que a senhora não perder esses meninos de novo.

E assim saíram do banheiro.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O ônibus

Já chegou ao ponto de ônibus ansiosa. Olhou o relógio. Olhou um lado da rua. Na outra direção também por hábito. No outro lado da rua passava um ônibus que também passava em seu destino, mas o trajeto era tão demorado! O desse lado de cá é bem mais rápido.

Está vindo um. Será ele? Não é. Olha o relógio. Pessoas correm para subirem no ônibus. E ela fica.

Minutos se passam. Uma criança chora perto, mas não vira o rosto para ver. Aperta a bolsa com o braço contra o corpo. Olha o relógio.

No ponto em frente, o ônibus de percurso maior. Quase vazio. Será que deveria atravessar e pegar ele. O ônibus começa a andar. Ai, devia ter pegado esse mesmo! E se o outro demorar? O ônibus vira uma esquina. Devia ter pegado esse mesmo!

Não se ouve mais o choro. Adolescentes passam rindo. Outro ônibus chega, mas não é ainda o seu. Olha o relógio.

Pessoas chegam, pessoas pegam suas conduções e ela ali esperando. Olha na direção em que o ônibus que espera, devia vim. Nada! Só carros e motos.

Pensando bem, aquele outro ônibus nem tem o percurso tão maior assim. A diferença deve ser de uns dez minutos. Melhor que ficar esperando no ponto.

Atravessa a rua de duas mãos com dificuldade, devido ao trafego de carros. Pronto! Logo estará à caminho de seu destino!

Quando olha para o outro lado da rua, mal acredita em ver o ônibus do percurso menor. Tenta atravessar, mas nenhum motorista se sensibiliza em deixá-la passar. O ônibus segue o seu caminho, deixando-a ali: parada no ponto.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Dona Mariquinha

Dona Mariquinha era uma mulher muito temente a Deus. Muito religiosa, mesmo! Pode perguntar ao padre Raimundo: Dona Mariquinha, desde novinha, não era mulher de perder missa ou faltar com os trabalhos da comunidade.

- Se cada um fizer a sua parte, Deus não irá faltar com a Dele! - repetia.

Acontece que sua casa ficava justo na rua às margens do Rio Suçuarana, que contornava sua pacata cidade. E perto dali, já há alguns anos, foi construída uma barragem na cachoeira rio acima. Isso até que era bom, pois na estação das chuvas o rio não enchia mais tanto.

Mas a obra do homem é imperfeita, né? Justo num toró, duas comportas da barragem não agüentaram a pressão da água e TCHIBUM... Foi aquele mundaréu de água rio abaixo.

Foi um “Deus me acuda!” literalmente. Dona Mariquinha se ajoelhou no pequeno altar que mantinha no quarto e dali oração para Deus segurar as águas que a essa altura já começava a invadir a entrada da casa.

- Mariquinha, mulher! ‘Bora logo! – gritou Totonho, seu marido.

- ‘Bora pr’onde?

- ‘Bora fugir que o aguaréu ‘tá vindo! ‘Bora prá parte alta da cidade que aqui não vai dar jeito, não.

- Que homem de pouca fé é você! Se diz tão católico e com essa pouca confiança em Deus. Ele não há de nos faltar! Se junte a mim no Terço.

-Mas, Mariquinha... Você reza no caminho. Vamos, mulher!

- Deus está vendo essa sua falta, hein? Vá você com sua covardia que ficarei aqui com minha fé.

-Mas, mulher...

Totonho acabou fugindo prá parte alta da cidade e Dona Mariquinha ficou, rezando, já com a água chegando ao quarto onde estava.

Algum tempo depois, ouviu alguém gritar:

-Ainda tem alguém ai?

- Eu estou aqui, na Graça de Deus. –gritou de volta.

Seu Vicente entrou de canoa e tudo, encontrando-a empoleirada no em cima do guarda-roupa com a imagem de Santo Antonio nos braços.

- Ô vizinha, o que está fazendo ai? Inda bem que algo parecia me dizer prá vim prá esses lados. Ainda muita água ta vindo. Faz o favor de vim comigo que a sinhora levo prum lugar mais seguro.

- Muito obrigada ao senhor, mas vou ficar aqui. O lugar mais seguro que existe é com Deus e eu estou com ele. Eu que fui uma boa cristã minha vida todinha, não hei de ser abandonada agora. Deus, que tudo pode, irá proteger meu lar e a mim!

- Mas vizinha! A senhora tem que sair daqui. Minha canoa é humilde, mas faz medo não. Melhor que ficar ai. A senhora faz o favor de vim que eu te acudo.

- Não preciso ir a lugar nenhum, pois quem bem sabe do quando fui e sou uma boa católica é Deus. Apesar de não ter virado freira, eu me dediquei ao próximo. Então agora minha fé não vai falhar e Deus me dará o livramento!

Não adiantou Seu Vicente gastar o latim, pois cerca de 20 minutos depois ele remou para fora da casa sem a Dona Mariquinha que não queria sair por nadica desse mundo. Ela insistia que tava protegida por Deus.

Como se não bastasse a água que descia da barragem, a chuva apertou. Seu Totonho, coitado, pedia que alguém fosse lá acudir a esposa. Mas quem disse que acreditavam que ela ainda tava lá? Só quando chegou o Seu Vicente que acreditaram no homem. E agora e agora e agora? Como iam arrancar aquela mulher de casa?

O padre Raimundo até quis ir até a casa na canoa, mas o impediram. Seria uma sandice alguém querer descer! Pois veja que Dona Mariquinha morava justo na margem do rio. Quer dizer, agora tava bem no meio daquele mundão d’água.

Mas num é que vinha um helicóptero da polícia da capital, auxiliando nos resgates? Quando sobrevoavam aquelas casas imersas na água, viram uma senhora ajoelhada, agarrada numa imagem de Santo Antonio, em cima de um dos telhados. Sim, era a Dona Mariquinha.

-Oh, coitada! Deve todo mundo ter fugido e esquecido a velha prá trás. – comentou o piloto.

De pronto jogaram uma escada de corda e um dos policiais desceu para auxiliar a senhora no resgate. Mas quem disse que Dona Mariquinha queria ir?

-Não, muito obrigada, mas não preciso ir. Minha fé em Deus é grande e Ele me dará o livramento e nada acontecerá comigo.

- Minha senhora, este local está perigoso. A água está descendo e logo todas as casas ficarão embaixo d’água.

-Você não tem fé em Deus, não?! Pois eu tenho sei que ele dará ordens para proteger aqueles que acreditam Nele. Nada de mal irá me acontecer. Eu vou ficar aqui louvando a Deus!

O policial e a Dona Mariquinha começaram a discutir. “Que velha teimosa! Deve já estar gagá.” Depois de muito trelelê, o policial decidiu levar a mulher por bem ou por mal. Afinal, seu dever era salvá-la independente de seu estado mental. Pois Dona Mariquinha começou a querer fugir do homem e começou a correr pelo pequeno telhado. Só que uma telha quebrou, Dona Mariquinha caiu quebrando as demais e ela acabou indo prá dentro da casa submersa.

Bem, ela morreu e como realmente sempre foi uma mulher muito devota e boa, foi para o Céu.

Mas quem disse que Dona Mariquinha estava satisfeita? Ela tava uma arara!

- Como Deus pôde me abandonar justo na hora que mais precisei Dele? Eu sempre fui uma mulher muito seguidora dos Seus mandamentos. Prá que? Prá morrer assim? Desassistida? Deus não podia me dar uma paga dessas! – reclamava.

-Não. Deus me deve uma explicação! Quero falar com ele!- decidiu.

Tanto encheu o saco dos anjos e dos Santos, especialmente de São Pedro, que não é que acabou conseguindo uma audiência?!

Nem bem os portões celestiais sem abriram, Dona Mariquinha já entrou reclamando:

-Mas, Deus! Como pôde fazer aquilo comigo?

-Aquilo o que Mariquinha, minha filha? –falou pacientemente.

- Me abandonar para morrer daquele jeito! Justo eu que desde criança seguir seus mandamentos, nunca faltei aos meus compromissos na paróquia e na comunidade, casei pura, criei meus filhos e meus afilhados nos mandamentos da Igreja, fiz trabalho voluntário...

Durante bem uns quarenta minutos Dona Mariquinha falou sem parar, falando o quanto foi uma boa católica, o que fez e Deus não atendeu suas orações de proteção e livramento durante a enchente.

- Mas eu te atendi, Mariquinha! Eu mandei seu marido ir te buscar no quarto, mas você não quis ir. Enviei uma canoa para te levar para fora daquela enchente, mas você não quis ir. Desviei um helicóptero de sua trajetória para ir te resgatar, mas você acabou fazendo uma confusão e não quis ir. O que mais você queria que eu fizesse para te proteger e te livrar daquela situação?

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Eu sempre conto essa estória, aprendida há muitos anos e todo modificada pelo tempo, aos meus alunos do Noturno, quando começam a dizer: "Se Deus quiser, eu aprendo." "Se Deus quiser eu vou passar de ano." "Se for a vontade de Deus..."

Muitas vezes, Deus quer, mas é necessários que nós façamos a nossa parte.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Mal-assombrado


Seu coração disparava quando sua mãe a conduzia pela calçada em frente daquele casarão. Abandonado, sua fachada descascada estava preta e via-se os pátios externos tomados pelo mato.

Mas, em sua fértil imaginação, não se encontrava desabitada. Era mal-assombrado. Aquele era o lar de todas as bruxas, monstros e fantasmas das histórias que ouvia da professora, da mãe e na TV.

Mesmo já adulta, não podia deixar de pensar naquele casarão quando lia alguns contos de Edgar Allan Poe.
_ _ _ _ _ _
Estava em plena época de guerra contra a acne.

Sua melhor-amiga-para-sempre não apareceu no playground durante todo o fim-de-semana. Resolveu interfonar. Nem foi preciso, o porteiro lhe contou do falecimento do pai e da viagem de urgência da família.

Algumas vezes foi fazer companhia a sua amiga, já que esta não via mais graça em descer. Não se incomodava com as lágrimas, nem com as velas ou as janelas sempre fechadas e cortinas cerradas o que deixava o ar morno e úmido. O que a aflingia eram os sons de passos quando estavam todos quietos, as luzes que se acendiam ou apagavam sozinhas e aquela sensação de estar sendo observada por mais alguém.

Sempre tinha a impressão que se voltasse àquele apartamento, ia ver um fantasma.

Foi deixando de ir.

A amiga se mudou após alguns meses.

Nunca mais se falaram.
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Casarões abandonados e lares onde um dos moradores acabou de falecer são alguns dos lugares esperados para se ver fantasmas.

Mas em um homem? Aquilo foi inesperado. Mas ele era definitivamente um homem mal-assombrado.

Assombrado por um relacionamento que ainda não havia acabado em seu coração e sentimentos, por mais que dissesse o contrário.

Dessa vez, não fugiu. Escolheu enfrentar.

Nadou contra sua própria correnteza para tentar descobrir os peixes do fundo das águas.Emprestou seu ouvido, empregou sua paciência e tempo. Se enganou, sabendo que estava sendo enganada por si própria. Ela queria se enganar!

Mas sempre a assombração aparecia, arrastando correntes, derrubando copos, trazendo ventanias e confusão ao seu mundo.

Ele era um homem mal-assombrado.
Ela desejava ser um fantasma.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Conrado

Ela quase não foi ao cinema naquele dia. Havia levado um bolo da amiga. Chegou tarde, já passavam os trailers, decidiu sentar no assento vazio mais próximo.

- Posso sentar aqui ou tá guardado para alguém?

-Não. A cadeira está livre. - uma voz masculina respondeu.

No meio do filme, a tela escureceu e as luzes guias apagaram. Tensão. O que houve?

- Gente, faltou luz. Esperem que irei ligar o gerador. - gritou o projetista.

Riso nervoso. Tinha um medo irracional e infantil do escuro. O rapaz sentado ao seu lado percebeu.

- Se acalme, moça. Logo a luz voltará. Além disso, estou aqui prá te proteger! - e se segurou sua mão que estava fria e suando.

Foi assim que Camila e Conrado se conheceram.




Camila não sentiu a menor atração pelo Conrado. Não que ele lhe fosse desagradável, mas o achou muito mauricinho. Mas Camila tinha muito claro que os caras que mais a atraíram foram os que mais a fizeram sofrer. Enquanto os outros caras fugiam de assumir um namoro, apesar dos meses de "rolo", Conrado desde o inicio deixou claro que queria um compromisso.

O Cupido flechou Conrado, mas parece que esqueceu de Camila. Mas não fazia mal!

O que Conrado não lhe provocava em paixão, compensava em conforto e mimos. Compras, ida a bons restaurantes e fins de semana em pousadas charmosas do litoral se tornaram rotina para Camila. Os pais de Conrado tinham uma pequena rede de panificadoras na região. Conrado já trabalhava na administração dos negócios, apesar de estar ainda no meio da graduação.

Em resumo, Conrado não era o homem dos sonhos de Camila, mas poderia ser o homem de sua vida. Vida essa sem grandes emoções, mas confortável num relacionamento bem morninho. Tinha afeto pelo namorado.

Conrado avisou a Camila que iria viajar por alguns dias durante o carnaval. Camila nem perguntou o destino, afinal, ele só poderia estar viajando para resolver algum problema da família ou dos negócios. Caso contrário, certamente iria levá-la. Na verdade, ela até esqueceu a tal viagem, tão descansada que ficou.



Manhã do sábado de carnaval. Camila achou estranho quando percebeu que já eram onze horas e Conrado ainda não havia ligado. Onde será que ele o levaria para almoçar dessa vez? Deu caixa. Fez várias tentativas, com o mesmo resultado.

O coração de Camila estava espremido de preocupação. Tinha certeza que algo havia ocorrido. Afinal, sempre nesses dois anos ela havia conseguido falar rapidamente com o namorado. Já passavam da uma hora, quando finalmente Conrado retornou.

-Eu não te falei que iria viajar nesse carnaval? Então? Acabei de chegar no aeroporto de Salvador!

Salvador? Havia ido ao carnaval soteropolitano sem ela? Sozinho? A surpresa foi tanta que mal conseguiu se despedir, no telefone. Sentiu que Conrado havia lhe passado para trás, afinal, quem não conhece a fama do carnaval de Salvador. Claro que as intenções dele não eram as mais inocentes, ao omitir para onde iria.

Mas não sentiu raiva e nem ciúme. Muito pelo contrário, um onda de adrenalina lhe invadiu o corpo. Conrado não era aquele homem tão certinho e bonzinho que chegava a ser insosso. Era um homem de verdade! Sonhou a noite toda com ele.

-Filha, eu preciso falar com você. Mas antes preciso que você se mantenha calma.

A mãe acordá-la daquela forma era no mínimo preocupante. Será que alguém havia se acidentado?

-Filha, eu não vou te enrolar. Conrado não está viajando a trabalho, como eu já suspeitava.Ele acabou de aparecer numa reportagem sobre o carnaval de Salvador agarrando em uma mulher. E olha filha, não há dúvida, porque inclusive ele deu uma entrevista sobre isso.

A mãe deve ter confundido a cara de felicidade com cara de choque. Para Camila, Conrado agiu como homem! Sentiu orgulho de seu homem! E diga-se de passagem, era a primeira vez que Camila pensava nele como "seu homem". Olhou a foto de seu namorado num porta-retrato na cômoda e sentiu seu coração acelerar.

Finalmente, o Cupido a havia flechado! Estava apaixonada por Conrado!

Enquanto ela suspirava pelo seu homem, o telefone começou a tocar. Todos viram o Conrado na folia baiana. Inclusive, a filha da colega de trabalho da mãe já havia encontrado um link prá assistir ao vídeo pela internet.

Camila achou melhor tentar camuflar sua felicidade pela pulada de cerca de Conrado. Afinal, sabia que não foi correto o que ele fez. Mas também não o condenou, o que aliás nem precisava já que todas já o faziam por ela.

"Homem é tudo igual!" / "Ele merece é levar outro corno!" / "Foi se divertir com as filiais, mas vai acabar voltando a matriz!" / "Mantenha sua integridade, não queira mais ele." / "Ele não te merece!" / "Sempre suspeitei daquela cara de santo!"

Quanto mais o assunto era comentado, quanto mais a olhavam com pena, mais apaixonada Camila se sentia. Não via a hora de Conrado voltar. Não via a hora de ele ligar e ouvir sua voz. Nunca o desejou tanto! Mas ele não deu notícia.


Na sexta, finalmente uma mensagem chamando-a para conversarem num bar próximo da casa dela. Ele não foi buscá-la, pela primeira vez, mas ela queria tanto vê-lo! Se vestiu sensualmente. Seria uma "reconciliação" em grande estilo. A mãe foi contra sua ida, mas ninguém seria capaz de detê-la.

Conrado estava com um semblante sério, nunca dantes visto por Camila. Deveria se sentir tão culpado! Se agarrou a ele, quis beijá-lo, mas ele desviou a boca.

- O que foi meu amor? Não sentiu saudade? Eu sei que foi só uma loucura de carnaval! Eu te perdôo.

-Camila, senta ai que precisamos conversar.

Não pode crer em seus ouvidos ao ouvi-lo dizer que há algum tempo sentia que aquele namoro não tinha futuro, que já havia gostado muito dela mas nunca sentiu reciprocidade e que aquela viagem era um teste para ele. Não havia volta! Ele não se sentia mais compromissado a ela, por isso a viagem. Era necessário terminarem o relacionamento e cada um seguir seu caminho.

Camila chorou desesperada, implorou que Conrado voltasse atrás na decisão. Jurou amor, contou como se sentiu ao saber do ocorrido no carnaval. Não podia perder seu grande amor!

-Agora é tarde! Você devia ter descoberto todo esse seu amor mais cedo. E, ao contrário de você, eu não vou namorar alguém que não goste de fato. Mesmo porque, eu não ganho nada com isso: nem emocionalmente e nem financeiramente. Eu não sou do tipo interesseiro, eu sempre fui interessado. Não posso dizer o mesmo de você!

Durante uma semana mal dormiu, mal comeu, mal saia do quarto. Tentou falar com ele várias vezes pelo celular, sem sucesso. Tentou o msn, foi bloqueada. No orkut, novamente bloqueada. As aulas recomeçaram na faculdade e continuou na cama, chorando.

Mas toda tempestade um dia termina. Percebeu que sua vida tinha que prosseguir. Resolveu ir ao shopping. Quando deu por si, estava na fila do cinema. Ao entrar na sala de projeção, escolheu sentar ao lado de um rapaz sozinho:

-Esse assento está reservado para alguém?

-Não, você pode ficar.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Por volta das 7 da manhã


Acabou se maquiando excessivamente na tentativa que não percebessem seu estado de espírito. Se desconfiassem de alguma coisa, diria que achava que tava ficando gripada. E se perguntassem por Rafa, diria que, diria... Percebeu que não sabia o que responder caso lhe perguntassem.

O cheiro de café recém passado ao invés de lhe animar, dessa vez lhe embrulhou o estômago. Será a marca nova? Não, não havia ainda aberto a nova embalagem. Derramou o líquido escuro na pia. Se sentisse fome, desceria até a cantina.

Novamente conferiu sua roupa. Queria estar mais bonita que nunca, como compensação. Mas não queria levantar suspeitas, parecer diferente. Ela, que sempre reclamava de sua rotina, naquela manhã queria que sua vida continuasse a mesma.

Onde estaria Rafa àquela hora?

Conferiu sua bolsa mais uma vez, mas ao fechar a porta, sentiu que faltava algo. Olhou a bolsa de novo. Chaves, documentos, dinheiro, celular, maquiagem, agenda. O que esquecia, Deus?

Quando engatou a segunda marcha, que as lágrimas começaram a cair. No som, Chico. O ar gelado. E o assento do carona dolorasamente vazio.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Telminha e Zeca

Telminha e Zeca foram casados por 8 anos, após um namoro que logo virou noivado de 5 anos. Casaram porque era o correto a fazer, depois de tanto tempo. O apartamento já havia sido entregue pela construtora, mesmo!
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Uma pequena reforma no antigo vestido de noiva da mãe (afinal o vintage estava na moda), um pequeno estoque feito com meses de antecedência de ingredientes para docinhos e salgados (que foram feitos pelas tias durante 2 dias, como forma de presente de casamento), o bolo encomendado na melhor padaria do bairro, um padre que havia sido colega de sala na infância e muita boa vontade das amigas para decorar a igreja e um galpão alugado, possibilitaram a realização de um casamento simples e caloroso.
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No primeiro aniversário de casamento, Telminha resolveu fazer uma surpresa para Zeca. Pediu pra sair mais cedo do trabalho e passou a tarde no salão. Cortou, escovou, cacheou, depilou, limpou, escarnou, pintou, perfumou e maquiou tudo o que tinha direito. Quando ouviu o barulho da fechadura, correu prá sala vestida com a fantasia de oncinha que há uma semana havia comprado, num sexshop. Zeca arregalou os olhos e logo explodiu em gargalhadas, perguntando onde era o baile de carnaval.

Naquela noite, eles saíram: ele prá o estádio futebol para ver a final do campeonato com seus colegas de trabalho e ela prá casa de sua melhor amiga prá chorar.

Uma semana depois, Zeca perguntou se não estava perto o aniversário de casamento deles.

Telminha se convenceu que casamento era "isso mesmo", mas ainda sonhava em ser o objeto de "amor incondicional" de alguém. Por isso, resolveu engravidar. Quando mostrou o exame positivo para Zeca, disse que não dava mesmo prá confiar em pílulas.

Aquela gravidez ocupou seu coração, seus pensamentos e seu tempo. Aquela dependência daquela bebê cheio de dobrinhas que só sossegava em seu peito parecia ser seu sonho materalizado. E para sua bebê não importava como estava sua unha, seu cabelo ou se estava depilada. Sua bebê a amava e precisava dela. Zeca passou a ocupar o papel de motorista, em sua vida.

Zeca via aquela mulher cada vez mais relapsa com a aparência, vestindo aquelas camisolas enormes de algodão que pareciam serem de sua avó e se perguntava por onde andaria aquela fantasia de oncinha que Telminha vestiu certa vez. Ela ficou engraçada de tão vulgar, mas sabe que até tava mesmo gostosinha...

Zeca amava muito Biazinha, mas não aguentava mais tanto de papo de fraldas, leite e consultas pediátricas. Já o seu time... esse só lhe dava alegrias. E nada melhor que sair com os amigos prá assistir á algum jogo num bar e depois discutir cada lance.

Mas Biazinha cresceu, virou Bia. Foi prá escolinha, o que foi um baque prá Telminha, pois esta percebeu que sua filha conseguia sobreviver a algumas horas sem ela. Sem que a mãe percebesse, Bia aprendeu a ler e passava horas lendo e relendo seus livrinhos. De repente, começou a pedir mais e mais prá ir brincar na casa de alguma vizinha de sua idade. E voltava contando novidades de um mundo no qual Telminha não tinha qualquer participação. Cadê aquela dependência, aquele "amor incondicional"?

Prá completar, Zeca resolveu assinar tv a cabo prá assistir jogos de futebol com times que Telminha nunca havia ouvido falar. E ainda convidava um monte de amigos prá assistir tv, beber e falar palavrão até a madrugada enquanto Telminha fazia tira-gostos, pegava cervejas e lavava pratos e copos. Telminha assumiu o papel de empregada na vida de Zeca.

Ela nem se surpreendeu quando atendeu o celular do marido que tomava banho e ouviu um meloso: "Amooooooorrr, você pode falar com sua Potoquinha?" Telminha entregou o aparelho para Zeca no banheiro dizendo que era Potoquinha e voltou a catar o feijão. Não chorou e nem sentiu raiva.

Toda a família tentou convencer ao casal de voltar atrás na decisão do divórcio. "Pense na filha de vocês, que é apenas uma criança!" Já Bia estava feliz por que teria dois quartos a partir de então. Não estava acostumada a ver os pais como casal, mesmo!

Telminha resolveu que seu "amor" tinha que ser ela mesma. Entrou na academia e prestou vestibular numa faculdade particular perto de sua casa. Com as novas colegas de administração voltou a frequentar o salão e até passou a fazer drenagem linfática. A mudança estética e na auto-estima era notável! Logo começou a sair com um colega de classe, 15 anos mais jovem.

Numa tarde de sábado, enquanto passeava com Bia e a Potoquinha (que na verdade se chamava Eliete), Zeca mal pôde acreditar em seus olhos ao encontrar casualmente Telminha. Nunca a tinha visto tão bem, daquele jeito! Telminha quis fugir, fazer de conta de que não o tinha visto. Afinal, estava com o Douglas e sua intuição que falou que aquela loira que mal devia ter 25 anos, era a Potoquinha. Mas ouviu a filha chamando por ela. O jeito era enfrentar.

Ela tentou ser o mais natural possível, principalmente ao apresentar o Douglas. Zeca estava nervoso e prá disfarçar, não largou as mãos de Eliete e Bia prá que as suas não o traíssem. Telminha encolheu a barriga e empinou o peito, abraçando Douglas. Zeca tentava não ficar medindo aquele moleque, se perguntando em que berçario Telminha devia tê-lo achado.

Ela não podia se cuidar, se vestir bem e ficar bonita daquele jeito quando eram casados?

Ele não podia ser carinhoso e ficar de mãos dadas com ela ao passear pelo shopping, quando eram casados?

Aquela vaca!

Aquele cachorro!

terça-feira, 29 de julho de 2008

O oposto de onde queria estar.



"(...) não termina e eu preciso chegar. Que horas são mesmo? Já são 8 e 23. Eu não posso esquecer de pagar a conta de luz. Onde vou almoçar hoje mesmo? Anda logo ônibus! O vencimento é hoje e ainda não paguei a luz. Tudo prá última hora! Não posso esquecer de ir pegar a calça em Dona Terezinha. Anda logo, vai! O que eu vou almoçar? Amanhã tem aula com Toledo, que saco! Por que ele não tem uma dor de barriga, hein? Ai, céus... 8 e 25 e eu presa aqui. Onde vou encontrar um posto da Coelba? Não é possível que não tenha um sequer em Brotas! Bora, bora... anda! Será que a calça dessa vez ficou boa? Quanto Dona Terezinha disse que era mesmo? Ai, cabeça! Toledo nunca falta, né? Eu podia ir comer perto(...)"

Naquela sexta o ônibus seguia em seu intinerário já previsível, levando Isabela pela ruas e ladeiras de Salvador. Quem a via sentada, quieta no seu vestido cinza e escapim preto, olhos fixos prá algum ponto fora da janela, não imaginava a agitação de pensamentos e preocupações que se passava em sua cabeça.
*
Ela vinha da casa ela escolheu para ser seu lar, indo em direção ao trabalho que batalhou um bom tempo prá conseguir e no dia seguinte iria as aulas da pós que sempre sonhou fazer. Era independente, reconhecida pelos seus superiores pela sua competência, tinha grandes chances de ascensão e ainda era jovem. Mas não havia espírito prá usufruir nada disso. Ainda não era o suficiente! Ainda havia um vazio! Ainda havia muito a fazer!
*
Desde cedo aprendeu a ser disciplinada com seus objetivos. O lema sempre foi sacrificar alguns momentos do presente por uma vitória no futuro. Por isso, até o dia da formatura, nunca havia perdido uma noite de sono prá fazer "farra". Era do tipo que ia a praia com cadernos e livros prá estudar. Achava que todas suas amigas estavam perdendo a vida em perder tempo com coisas fúteis como passeios a shoppings, festas e shows. Seus finais-de-semana, suas noites, seus pensamentos eram focado num futuro inatingível, sempre cada vez mais distante a medida que avançava. Não apenas o ônibus onde estava, mas principalmente disciplina a levou onde estava. E de alguma forma, aquilo tudo tinha que valer a pena.
*
E entre pensamentos na Ladeira da Cruz da Redenção que viu, por um segundo, na rua um rapaz de bermuda cargo e camisa sem mangas descer a ladeira abraçado numa moça de vestido floral. E, para Isabela, o mundo parou!
E continuou parado.

Era ele, ali materalizado. Aquele que insistia em pensar como se fosse só um produto de sua imaginação.

Não havia mais contas a pagar, nem calças para pegar, nem aulas para assistir, nem um ônibus que andava devagar, nem o barulho dos carros, nem outras pessoas a seu redor. Só havia ele descendo a ladeira abraçado com uma outra mulher de vestido floral. O ônibus seguia em por seu percurso, mas ela continuava vivendo aquele segundo. E continuava a ver a bermuda verde cargo, a expressão de sorriso, o vestido floral, os braços rodeando um corpo que não era o seu.

Ele, que não queria estudar. Ele que fugia da aula prá fumar maconha. Ele que quando chovia, corria prá se banhar naquela água dizendo que era prá absorver a energia do mundo. Ele que não era ambicioso. Ele que não queria saber de trabalhar. Ele que quando ria ficava com o rosto vermelho.

Ele. Ali. Sorrindo e abraçando uma mulher de vestido floral. Três anos depois.

Isabela olhou prá si. Vestido cinza e escapim preto. Pela primeira vez naquela manhã percebeu que o céu estava lindo, ensolarado e sem nuvens. Viu que sentada ao seu lado, a menos de 5 centímetros, uma mãe embalava o sono de seu bebê. E Isabela de vestido cinza. Os dedos espremidos dentro do escapim preto. O dia tava tão bonito lá fora!

E ele continuava a descer a ladeira, continuamente, na mente de Isabela. E ela continuava engessada naquele vestido cinza. Será que era realmente isso que ela queria quando lhe disse "não", mesmo querendo dizer "sim"?

Não havia mais trabalho, não havia mais Brotas, não havia mais ônibus.

Quis tirar os sapatos. Quis não ter que ir trabalhar. Quis fugir dali. Ir prá um lugar distante, talvez. Estar num lugar onde não tivesse que ser o projeto do que queria ser e ser a pessoa que ela já era. Queria, pelo menos, ir se refugiar em sua cama prá se acalmar, embaixo de muitas cobertas e travesseiros.

Queria ir prá o oposto de onde estava.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

A reunião

Já se podia sentir o aroma do café coando, vindo da copa. Era a promessa de um pouco de calor naquela sala de reuniões, na fria tarde de maio.
As pessoas que já haviam chegado mal se olhavam, contrafeitas. Havia silêncio,mas não havia tranquilidade nos rostos contraídos. Alguém afagava discretamente o estômago tentando em vão aliviar a queimação. Se percebia três pares de pernas balançando por baixo da mesa.
Finalmente a copeira apareceu com uma bandeja com o café e água. Se não foram desatados, ao menos, alguns nós foram afroxados nas gargantas com a passagem dos goles de café.
O motivo da reunião chegou de terno escuro, nunca as pessoas naquela sala o haviam visto vestido assim. Trazia uma pasta aparentemente pesada e cheia de papéis e acompanhado de seu advogado. Todos os olhares se fixaram neles, alguns tentando justificar que não tinham opção, outros neutros e por fim os olhares de desprezo.
- Boa tarde!
- Nem tão boa assim.
Dois pares de olhos duelaram ferozmente.
E pouco tempo a porta se fechou, com a chegada dos últimos esperados.
Mais um destino se definiu assim.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Sapo

Não sentiu surpresa. Não sentiu raiva. Não sentiu ciúmes.
Apenas sentiu o gosto do gole de caipirinha, enquanto a menina passava por ela e lhe deu uma piscadinha. Logo atrás, o sapo da vez lhe seguia até a área do buffet.
Mas se serviram? Não! Foram até o fundo. Em pé, de frente um pro outro, o corpo dele impedia de vê-la.
De onde estava, não conseguia discenir se estavam abraçados ou se estavam beijando, ou coisa nenhuma. Mas uma coisa era certa, eles estavam muito juntos. Muito!
O gosto dele lhe voltou a boca. Deu mais um gole na bebida. Ainda podia sentir a barba dele roçando em seu pescoço. A chave do carro dele ainda estava na sua bolsa.
Parou de olhar e achou graça da situação.
Não fazia diferença se apenas conversavam, se estavam se beijando ou se transavam. Naquele momento o ato pesava menos do que a intenção. Ele queria lhe punir. Que bobinho!
Começou a rir. Gargalhou. Como se comportam como crianças mimadas quando ouvem um não! Como são previsíveis! Como são cafajestes! Como são sapos!
Mas estava impressionada da transformação ter se dado tão rápido.

**********
Dois dias depois, contando o ocorrido, a amiga se mostrou preocupada. Talvez ela estivesse magoada. Mas não estava magoada, nem chateada, nem com raiva. Ela não havia sido frustrada, simplesmente porque, ela agradecia a Deus, ele se mostrou antes de ela criar qualquer falsa expectativa.
Mas não... ele agiu como o esperado, como um sapo.
- Sapo?
- Sim, um sapo! Ou seja, um homem como outro qualquer.
- E desde quando homens são sapos?
- Desde quando eles se disfarçam de príncipes encantados!
- Ãhn?!
- Você já percebeu que ao contrário do conto de fadas, os homens são primeiro príncipes encantados e quando a gente os beija, se transformam em sapos?
- Eta, que exagero!
- Não se preocupe! Os sapos parecem ameaçadores, mas até que eu gosto deles!

**********
A noite estava extremamente agradável. Não fazia calor nem frio, a lua estava cheia e o céu estava estrelado.
Não sabia há quanto tempo estava ali sentada naquela varanda olhando o céu e os poucos carros que passavam lá embaixo. Olhou o relógio. Em menos de uma hora iria amanhecer. Fazia anos que não observava o nascer do sol. Esperava.
Seu coração estava tranquilo, sua mente um pouco neblinada pelas incontáveis caipirinhas, ás vezes soltava gargalhadas lembrando de algumas vezes que amanheceu bebendo em algum bar ou praia da cidade.
Ouviu passos atrás de si, mas não se virou. Sabia quem era.
Mesmo de costas sabia que havia sentado na cadeira atrás da sua. Sentia ele furando sua nuca com o olhar.
- Eu deixei as suas chaves com o barman, ele não te entregou?
- Entregou.
- Hum!
As estrelas pouco a pouco se perdiam no azul cada vez mais claro. A rua calma. Podia ouvir passarinhos piando.
- Eu estava te procurando.
- Estava?
- Por que você se escondeu?
- Eu me escondi? Foi eu quem me escondi? - se virou para ele rindo - Eu estava aqui o tempo todo, você quem se refugiu no fundo do buffet.
- Eu não fui me refugiar! Bora, eu te levo prá casa!
- Se eu quisesse ir prá casa já teria ido, mas preferi ficar aqui vendo o dia nascer.
- Você está chateada comigo por alguma razão?
- Eu tenho algum motivo prá me chatear com você?
- Não.
- Então...
Continuou olhando o céu e a rua. E assim ficaram, até o amanhecer.
Ele cochilava na cadeira, quando ela levantou prá ir ao banheiro. Na volta, sem pensar, se dirigiu a saída e pegou o primeiro taxi de uma longa fila.
Depois de tomar banho, dormiu como a mais despreocupadas das criaturas da Terra.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Confissões de Carolina

Venho tentado ser uma boa pessoa, fazer as coisas como devem ser. Venho fingindo que está tudo bem e até que nem percebi que me deixaram falando sozinha sobre a experiência mais emocionate de minha vida. Mas deixa prá lá! Quem sou eu, afinal? Que importância tenho diante de tantas pessoas tão talentosas e tão menos inúteis do que eu.

Eu queria ter a decência de usar calcinhas mais caras. O que esperar de uma pessoa que compra suas roupas íntimas em balaios de promoção em supermercado? Eu não dou nada por mim, nem por nenhum ato meu.
Uso calças que não beneficiam meu corpo. Apertam minha bunda, são folgadas na cintura, mostram o umbigo, sobram pano nas pernas finas que tenho. Porém são baratas e compradas nos balaios de supermercado, vizinho ao de calcinhas.
Meu cabelo não gosta de mim, está sempre armado e as pontas parecem palha. Uso cremes cuja embalagens trazer modelos com cabelo naturalmente liso. Eu queria não perceber que me fazem de besta.

Outro dia minha avó me disse que tinha sido dela a idéia de me chamar de Carolina. E desde então sou mais uma Carol, entre tantas que enche ruas, filas de banco e puteiros.
Ter esse nome é não ter o direito de ser chamada por ele. A pessoa mal bem conhece e já vem com um Carol prá cima de mim. Eu não gosto! Mas eu não respondo, pra evitar confusão.
O problema não é o Carol, pois esse realmente é meu apelido. Mas apelido é prá conhecidos, pra pessoas queridas, não pra desconhecidos que esquecem meu rosto antes de eu virar a esquina. Eu tenho gastrite.

Ontem Fábio me ligou. Disse que tava cheio de trabalho, que a mãe adoeceu e ele terá que dar assistência e que o carro tá quebrado. Só precisava de uma desculpa para não me ver esse final de semana, ele deu três. Ele está me enganando mais uma vez, o que já estou acostumada.
Terça retrasada fingi que não percebi que havia uma calcinha desconhecida pendurada no varal de sua casa. Não sendo minha e se dele, único morador da casa, não começou a usar peças íntimas femininas, só pode ser de outra mulher. Outra.
Só uma vez reagi. Nunca Fábio me deu a ilusão que era fiel, mas há três meses eu encontrei um par de brincos de conchinha na prateleira do armário de banheiro da casa dele. Meus olhos se encheram de lágrimas, mas guardei aqueles brincos no bolso da calça e falei nada. Aquele brinco queimou a minha calça até o anoitecer, quando voltei prá casa. No dia seguinte, inventei uma desculpa incrível para irmos nos shopping e como sempre, guardei o chaveiro dele na minha bolsa "para não perder". Quando estávamos na C&A, consegui me perder dele e fui correndo ao chaveiro, que ficava no mesmo piso, fazer uma cópia da chave da casa dele.
No sábado seguinte, ele me deixou às 10 hs em casa, dizendo que ia visitar a mãe. Fiz que entrava em casa, mas fui pra o ponto de ônibus.
Realmente ele não estava em casa quando cheguei, então resolvi esperar. Menos de duas horas depois giraram a chave na fechadura. A mulher demostrou surpresa, já Fábio se portou como se fosse esperado que eu estivesse lá. Ela não era mais bonita, nem mais feia, aparentava ter a minha idade e a minha altura.
Respirei fundo e me apresentei:
- Olá! Sou Carolina!
- Ah! Você é a irmã de Fabinho, né? Ele já mostrou sua foto no celular dele.
- Eu sou sua irmã, Fábio?
- Não, não é.
A mulher, coitada, não sabia que ele tinha namorada. Ela olhou prá mim e prá Fábio como se pedisse uma resposta. Eu vi a ficha caindo, pela expressão dela.
- Esse brinco é seu? - abri a mão, mostrando seu conteúdo
- Fabinho, quem é ela? - já estava com os olhos cheios de lágrimas.
- Já que estamos nessa situação, o melhor é eu apresenta-las. Essa é Carol, minha namorada há mais de um ano e essa é Rose, com quem eu tenho uma bonita história. - Você tinha uma história! - saiu a tal Rose chorando.
Fábio foi atrás dela. Como já havia feito o que precisava, também fui embora. Ainda vi a tal Rose sentada num banco da pracinha chorando copiosamente. Fábio deve ter fugido para um lugar bem longe de nós duas, como bom homem covarde que é.
No dia seguinte, Fábio apareceu em minha casa para irmos comer uma pizza. Não tocamos no assunto sobre o que havia ocorrido. Desde então, é como se nada tivesse acontecido.
Você pode me perguntar por que continuo com ele. Não é tão complicado de entender: quando estamos juntos, ele age como se não existisse mais mulher nenhuma no mundo. Me faz sentir especial! Mesmo que ele me faça de besta, afinal as outras mulheres são só as outras. Eu que sou oficialmente sua namorada, conhecida pela família e amigos.
Passo o dia sorrindo no trabalho, mas é um sorriso burocrático, não é felicidade. Sou expositora de café. Passo meus dias na luz fria de uma grande supermercado sorrindo, oferecendo cafezinhos e exaltando as qualidades do produto. As vezes, a empresa me envia para um supermercado diferente, mas na verdade só muda o endereço, porque por dentro, todos são iguais. As prateleiras, os funcionários, os produtos, os clientes, são sempre os mesmos independente de que ponto da cidade eu esteja.
Tudo é igual, nada é diferente em minha vida. Não sei se realmente há algum sentido nisso tudo. Também já estou cheia das pessoas me dizerem que sou nova e posso dar um novo rumo à minha vida. Todos os caminhos levam ao mesmo lugar, a diferença que alguns são asfaltados e outros não.
Mas... a senhora e o senhor aceitam um cafezinho?

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

A campainha.

Quando soaram a campainha, Isabel estava escovando os dentes. Mesmo assim, foi correndo olhar no olho-mágico pra ver quem era. Seu rosto se comprimiu quando descobriu quem era. Isabel voltou ao banheiro pra terminar de escovar os dentes.
Quando soaram de novo a campainha, Isabel estava passando tônico facial. Ela não correu ao olho-mágico, pois já sabia quem era. Começou a passar o hidratante.
Quando a campainha soou pela terceira vez, Isabel estava passando o hidratante no nariz. Talvez fosse melhor atender logo a porta.

Não havia motivos para Isabel não ter atendido logo. Há meses atrás, abriria a porta antes mesmo que a campainha fosse acionada. Porém, os comentários idiotas depois de assistirem cada filme, o gosto por suco de tangerina, a piada que era sempre repetida, o fato de ele não usar meias, o cabelo repartido ao meio e o apelido de “Potoquinha”, foi minando toda aquele interesse que ela tinha.
Mas como, afinal, ele era um amor de pessoa com ela, tratando-a como há muito nenhum homem havia lhe tratado, Isabel ia levando aquela relação. Mas sem frio na barriga, sem vontade de estar o mais linda possível, sem paciência, sem humor. Aquilo não tinha mais graça nenhuma!
Mas e se terminasse com ele e depois se arrependesse? Não pela saudade ou porque ela possivelmente descobriria que gostava mesmo dele, isso ela sabia que não iria acontecer. Mas ela temia se arrepender de largar um cara que era cavalheiro, carinhoso e atencioso e acabasse com outro cara cafajeste que a mal-tratasse. Infelizmente, mesmo com os comentários idiotas, mesmo com o suco de tangerina, com o cabelo repartido ao meio e sem as meias, homens gentis e atenciosos, como seu namorado, estavam em falta no mercado.

Isabel tinha que escolher entre uma relação morna que não lhe dizia mais respeito e voltar a solterice e se expor, de novo, a ser maltratada por homens interessantíssimos mas que não queriam compromisso.
Sem correr, mas também não tão lentamente, Isabel se dirigiu a porta. Ainda ouviu a campainha outra vez e quando estava pra girar a maçaneta, ouviu ele gritar lá fora:
- Abra, Potoquinha! Eu sei que você está aí!
Uma onda fria passou pela espinha, a mão de Isabel congelou no ar. Respirou fundo e foi para o quarto. Ainda ouviu a campainha outra vez antes de colocar os fones do disc-man. Nunca havia ouvido Bethânia cantar tão alto:
“Negue seu amor, o seu carinho
Diga que você já me esqueceu
Pise, machucando com jeitinho
Este coração que ainda é seu”...

P.S. A música citada é “Negue”, de Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos.

domingo, 18 de novembro de 2007

Exclusão emocional.

- Mas por que eu estou me sujeitando à isso?
Levantou da cama e ligou o computador. Abriu o msn, bloqueou-o. No orkut, o excluiu. Pronto! Não teria que ver as atualizações de foto, nem as entradas e saídas do msn com aquele pensamento de "será que ele irá vim falar comigo?". E que se dane se ele perceber, coisa muito improvável.
Abriu os arquivos de fotos e deletou todas as fotos dele, porque o lugar dele é no lixo mesmo! E prá não entrar em tentação limpou a lixeira da memória do computador.
Essa atitude era ridícula? Era infantil? Podia ser! Mas prá que ainda manter amizade, nem que seja virtual com uma pessoa que na sua frente lhe tratava bem, às vezes, mas longe dela a esculhambava? Não, ela não merecia isso!
Pôde voltar prá cama prá dormir mais aliviada.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

A felicidade me enviou um cartão de visita. Deixei num canto qualquer de minha mesa de trabalho.

Lúcia se olhava no espelho e sentia que era especial. Tinha olhos amendoados como se ninguém mais tivesse. Tinha cabelo comprido de escuras ondas. Era especial! Mal ela sabia que ser especial é ser igual à todas Lúcias, a todas que se olhavam no espelho, todas de olhos amendoados e cabelos com escuras ondas.
***************
Demostenes tinha vergonha de seu nome. Nome é identidade, é quem você é. Ele não queria ser Demostenes. Demo o quê? Nunca mais ouvir essa pergunta era o que desejava. Demo... Só podia ser coisa do Demônio mesmo, pensava batendo três vezes na madeira. Mas é o nome do médico que salvou sua vida em teu parto, menino! Não adiantava a mãe repetir. O Doutor Demostenes nem se lembra de sua existência. Mas o nome acabou sendo para sempre. Demo o quê? Demostenes. Como se soletra? D-E-M-O-S-T-E-N-E-S. Qual é mesmo a letra depois do T? Hora da chamada. Quando a professora fala seu nome, risadinhas. Dedé... liga não, porque eles são uns bobos. Não me chame de Dedé! Achava que esse apelido o idiotizava. Antes do médico não o ter salvo. E se fosse uma médica? Ele corria o risco de se chamar Ana Maria. Pelo menos as pessoa ssaberiam como escrever. Pelo menos não haveria as risadinhas. Tá bom! Teria risada sim por que menino não pode ter nome de menina. Mas ao menos não ouviria a temida pergunta: Demo o quê? Só podia ser coisa do Cão! E se benze.
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-No fundo, no fundo o que todos almejam é a felicidade. Quando fulaninho ou fulaninha fala: “eu quero conhecer a Europa”, “eu quero casar”, “eu quero trocar o forro do sofá” ou “eu quero morar na praia e ter uma pousada” nada mais é porque acha que isso lhe fará feliz! – disse Telma, batendo com a mão na mesa de plástico, fazendo sacudir as latas vazias a cada tapa.
- Xiii... Baixou a filósofa! – brincou Cida, pra risada de toda na mesa.
- Eu tô falando algo muito sério! É só parar pra perceber! Embaixo de nossos desejos sempre está o ideal da felicidade.
- Ideal da felicidade? Então ninguém nessa vida é feliz? Porque se é um ideal, é porque ninguém é. – considerou Kelly.
- Realmente eu sou uma pessoa muito triste! Minha vida tem nada que preste! Esperem ai que me suicidar ali por 2 minutos e já volto – disse Cida, arrancando mais risadas, indo ao banheiro.
- Mas ai é que está! – falou Telma dando outro tapa na mesa.- A gente não quer essa felicidade ralé, cotidiana. O que todos querem é a felicidade a bordo de um carrão importado, uma felicidade que resida numa casa com piscina, que vista roupa de marca, essas coisas...
- Eta, Telma! Você vai dizer que esse tal ideal de felicidade é igual pra todo mundo? Que felicidade seria se a gente estivesse tomando champagne e não essa cerva aqui maravilhosa? – considerou Kelly – Eu prefiro minha cervejinha com as minhas amiguinhas e tals.
- Muito bem, amiga! - comemorou Cida.
- Se bem que - completou Kelly- se o Gianecchini baixasse aqui e viesse cantar só prá mim com aquele olhar de "me coma" aquela música da propaganada do Mon Bijou, eu seria uma pessoa muuuito mais feliz!
- Viiiiva Salvador! - brindou as amigas entre risadas.

terça-feira, 24 de julho de 2007

O apartamento 103

Uma manhã a Araci do 101 veio me reclamar que o primeiro andar tava com cheiro de alguma coisa podre, que eu devia zelar mais pela higiene. Vê se pode? Uma coisa que nunca descuidei com da limpeza do prédio! E eu disse isso a ela, que ela me respeitasse, afinal, eu não tinha mais idade para ser desleixada! Agora, dentro dos seus apartamentos cada um que tem que cuidar de sua faxina, não é mesmo?

Apois! Mas enquanto eu falava com ela eu senti mesmo um cheiro assim meio estranho que vinha pela escada. Como você deve saber, eu moro no térreo. Aí, eu perguntei pra a Araci se não era da casa dela aquele cheiro. Pra quê? Ela nem me respondeu! Saiu batendo o pé.

Eu tinha que averiguar essa situação, não é mesmo? Afinal eu era a síndica! Quem sabe alguém, coitado, nem percebia o cheiro de sua própria casa? Dizem que nosso nariz acostuma, sabe-se lá. Fui direto pro primeiro andar e logo vi que o cheiro era de carne podre. Imagina só! Resolvi bater de porta em porta pra avisar pra cuidar de seus alimentos, ou quem sabe, que levasse logo o lixo para a casa de lixo, né? Porque tem gente que fica só esperando o saco ficar cheio pra descer o lixo. Há gente pra tudo!

Bati de porta em porta pra perguntar se não tinha esquecido carne na pia, se não era hora de descer o lixo. Fazer o papel de síndica chata, isso sim! Mas era necessário, fazer o que? Teve gente que entendeu, mas outros acharam ruim principalmente quando eu perguntava sobre o lixo. Quando abriam a porta eu via que o cheiro não era dos apartamentos. Só em três apartamentos não atenderam: o 103, o 302 e o 304. Mas o cheiro não era no terceiro andar, não. Era lá no primeiro andar mesmo!

Eu mandei fazer uma limpeza pesada nos andares, pra ver se saia a caatinga. Porque, como me disse a Dona Clarisse do 201, o cheiro podia estar no chão, de alguém que desceu com o lixo vazando algum líquido que já havia secado, só ficando o murrinho. A Rose passou, passou, passou produto, detergente, água sanitária e nada! O cheiro continuou! Na verdade, até aumentou!

De noite, deixei minha porta aberta pra poder ver o pessoal do 103, 302 e 304 passar. Eu falei com pessoal do 302 e do 304, mas nada do Seu Jonas do 103 passar. Fiquei até as 22 hs com a porta aberta, só esperando e nada! E fiquei lá sentindo aquele cheiro de carne podre. Quando a novela acabou, resolvi ir lá e bater na porta, porque ele podia ter passado e eu não visto! Ninguém atendeu. Enquanto tava lá buzinando, a Araci do 101 abriu a porta e disse que já havia buzinado lá e nada. Também disse que há dias não via Seu Jonas.

Eu não sou muito observadora da vida alheia, que isso é coisa de gente fuxiqueira. Mas já havia percebido que a caixa de correio do 103 realmente estava cheia., tanto que era difícil colocar novas correspondências. E puxando pela memória, realmente eu também já não o via há uns bons dias. E quando percebi isso, eu me preocupei!

Seu Jonas do 103 vivia sozinho desde que a mulher fugiu com um rapazinho que morava no prédio em frente ao nosso. A mulher de Seu Jonas, Kátia era o nome dela, era muito bonita e ficava se oferecendo pros homens daqui. O coitado trabalhando e ela descia com uns micro-vestidos, um perfume muito saliente, com aquele falar miado, pedindo pros vizinhos irem a casa dela consertar o encanamento, trocar o gás, tudo na hora que o marido não tava! Não podia dar outra, não? A gente começou a ver a Kátia de muito lero com um vizinho do prédio em frente, muito jovem, sabe? Acho que até a família dele morava no interior e ele tava aqui pra fazer faculdade. Morava com uma tia. Um dia, cadê os dois? Fugiram juntos em pleno meio-dia de uma quinta-feira, deixando bilhetes aos respectivos marido e tia.

Nesse dia Seu Jonas chorou como um bezerro desmamado. Ele que sempre fora reservado chorou até altas horas no ombro de quem estivesse disposto à consola-lo. No dia seguinte, voltou a sua introspecção, pior até! Sempre aparecia muito capisbaixo e encurvado. Tava pra perceber que até emagrecia.

E cerca de dez meses depois do acontecimento aquele cheiro de carne podre vindo do apartamento de Seu Jonas. Não era pra me preocupar? Ele devia ser louco pela mulher! Mesmo porque uma mulher daquelas não pode inspirar amor e sim loucura nos homens que cruzam seu caminho...

Nós não falamos nada, mas dava pra perceber que a Araci tinha a mesma preocupação nos olhos. Mas preferir falar nada e afastar esse tipo de pensamento que tava tendo, porque poderia ser só carne mesmo... carne do tipo se que compra no açougue. Mas naquela noite rezei dois terços na intenção de Seu Jonas.

No dia seguinte, o prédio estava infestado de moscas. Cada moscão! E eu que sempre fui zelosa pela limpeza e higiene, quando via aqueles seres me arrepiava toda! E apareceu também baratas, um nojo! Continuei inutilmente batendo na porta, tendo que agüentar um odor já insuportável. Verifiquei que as janelas estavam fechadas. E ninguém tinha algum número de telefone pra entrar em contato com ele ou algum parente. Eu só sabia que ele era professor, mas não sabia de quê ou onde.
Eu falando, você não faz idéia do fedor que estava de carne podre! Dava náusea, mal comi. De noite vários condôminos foram à minha casa e conversamos sobre aquele problema e nossa desconfiança de qual fosse à razão daquele cheiro todo. E se Seu Jonas tivesse se suicidado em casa? Eu também já começava à desconfiar, mas quando o Fernando do 204 falou, me subiu um calafrio pela espinha. E realmente era possível! Como não? Ser corneado e traído assim tão publicamente... A pessoa não é capaz de cometer uma loucura?

Imagina a minha situação: podia haver cadáver no apartamento logo acima do meu, no 103 e as pessoas despejavam as histórias mais macabras que tinham conhecimento. Além disso, se isso fosse verdade, olha que publicidade ruim pro prédio! Ia ficar marcado como o local que um homem se matou, os apartamentos aqui poderiam se desvalorizar.

Eu percebia que as pessoas ali em meu apartamento esperavam que eu tomasse uma atitude, mas eu não sabia o que fazer! Mas realmente o que não podia era continuar aquele fedor terrível, que já infestava todo o prédio e aquela invasão de insetos nojentos. Dona Clarisse do 201 como sempre veio com mais uma coerente observação: a gente tinha que notificar a polícia. Se fosse realmente o corpo de nosso vizinho a gente não poderia deixar ele lá apodrecendo no apartamento, além disso, ia parecer que a gente tem culpa no cartório. Se não fosse, a gente tinha o direito de que o motivo do fedor fosse eliminado, pois já era um caso de saúde pública aquele fedor e os insetos que estavam sendo atraídos.

Convocamos rapidamente uma assembléia de condomínio urgente, indo chamar os vizinhos que já não estavam lá na minha casa. Nunca vi uma reunião tão cheia! Todos queriam uma solução. Inclusive, o casal do 104 estava já indo passar a noite na casa de parentes deles, já que o cheiro era muito forte e eles tinham uma filhinha asmática. Foi decidido que no dia seguinte seria feito uma B.O. na delegacia do bairro. E ainda bem que Seu Cláudio do 301 se predispôs à me acompanhar, já que realmente delegacia não é ambiente pra uma senhora respeitável como eu estar sozinha.

Confesso que mal dormir. Rezei muito pela alma do Seu Jonas, que encontrasse a paz e a luz necessária e que Deus lhe perdoasse a retirada da própria vida. Com certeza no apartamento a polícia acharia números de telefones para contactar os parentes sobre o ocorrido, que poderiam tomar as providências quanto ao corpo.

Na manhã seguinte fui levando a ata da assembléia. Graças à Deus, a delegacia estava calma e fomos atendidos por um policial simpático, Eu contei tudo, todo o motivo da desconfiança, como era a esposa de Seu Jonas, tudo que eu sabia. Mas só porque poderia ser útil aos policiais, pois não sou do tipo que faz fofoca! De lá dois policiais nos acompanharam para averiguar a situação. Eu já estava tremendo como vara verde só de pensar no que seria encontrado no apartamento 103. Voltei ao prédio no carro de Seu Cláudio rezando o terço pela alma de Seu Jonas.

Chegando ao prédio, os dois policiais viram que realmente tava muito forte o fedor de carne podre, a quantidade de moscas que infestavam o prédio e decidiram que o apartamento tinha que ser averiguado. Foi chamado o chaveiro da banquinha a uma quadra do prédio para que a porta fosse aberta. Meus olhos já estavam cheias de lágrimas.

Quando a fechadura foi desmontada e a porta aberta, os dois policiais entraram. Depois de cerca de cinco minutos saíram rindo, dizendo que tinha cadáver nenhum. O fedor vinha da carne e comida que estava na geladeira sendo que as chaves da caixa de luz estavam desligadas. Ou seja, a comida apodreceu dentro da geladeira. Chega já tava cheio de bichinhos na carne! Eu me dispus à juntamente com a Rose jogar fora tudo e limpar depois a cozinha.

Foi tendo ânsia de vômito que conseguimos tirar toda aquela carne e jogar fora. O congelador tava abarrotado de carne, por isso todo aquele fedor! Gastei três garrafas de água sanitária pra limpar tudo. Levou muito esforço e tempo, mas de noite já estávamos livres do fedor e das moscas. Registramos tudo, é claro, no Livro de Ata.

Mas continuava a curiosidade sobre o paradeiro de Seu Jonas, já que se a carne chegou á apodrecer dentro da geladeira de dar bicho. Cerca de duas semanas ele reapareceu. Claro que pedimos justificativas, né? Mesmo porque a gente tinha que justificar o fato que chamamos a polícia, entramos no apartamento dele e jogamos fora toda a comida da geladeira. O coitado virou muito sem-graça e contou que tinha ido à um Seminário em São Paulo e lá decidiu ficar mais tempo tirando as férias atrasadas, ficando cerca de um mês e meio. Ele havia desligado as chaves de luz pra economizar luz e evitar acidentes, mas não imaginava que a comida ia apodrecer. Vê se pode? Um homem que me pareceu ser de tanto estudo!