"Todo carnaval tem seu fim e é o fim. E é o fim.
Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz"
Marcelo Camelo
O Carnaval acabou. Não só na cidade, na programação televisiva, mas principalmente na vida de Irene. A mala semi-aberta no chão deixava revelar que parte de seu conteúdo ainda não havia sido retirado. Havia dois dias que retornara para sua casa. Se alguém lhe perguntasse o motivo de não ter finalmente esvaziado a mala, Irene alegaria falta de tempo, pois estava entretida com medidas mais urgentes. Mas esta seria uma meia-verdade. Realmente, desde que regressou a seu apartamento, Irene teve que regar as plantas já semi-desidratadas, repor o estoque da dispensa, retornar as ligações sa secretária eletrônica e responder aos e-mails recebidos, entre outras pequenas medidas que qualquer pessoa que se ausenta por um pequeno período de casa necessita realizar em seu retorno.
Porém o principal motivo pra mala permanecer no chão, ao lado da cama, ainda exibindo sandálias, roupas e pequenas sacolas plásticas não era a falta de tempo. Desfazer completamente a mala significava o fim definitivo de seu carnaval. Mesmo que tenha ido pra uma pequena vila litorânea, longe de qualquer agito carnavalesco, Irene ali viveu seu carnaval, seus momentos de folia, alegria despreocupada e sem celular. Assim, Irene a principio retirou as roupas usadas e sujas, verificando que havia usado apenas dois terços das roupas que havia levado. Seus dias foram de biquine e saída de praia. A noite, uma camiseta, sandália rasteira e bermuda ou mini-saia. Depois, gradativamente, retirou as coisas que necessitava como: seus cremes, o tênis, peças de roupas, o livro que estava lendo.
Esvaziar de vez a mala significa o retorno definitivo a sua rotina de secretária. O despertador implacável às 6 hs., o café tomado com um olho no relógio/ outro na tv, o ônibus cheio às 7 hs., o "bom dia" mecânico a cada pessoa que encontra até sua mesa, o computador com a foto de um cachorro no desktop, o ar congelado do escritório, a comida sem tempero do retaurante a quilo da esquina, as mesmas piadas sem graça na hora do cafezinho, o banheiro do andar com cheio de água sanitária, a sensação no fim do expediente que nem tudo foi feito, outro ônibus lotado, a fila na padaria, a novela cada vez mais apelativa, o telejornal com notícias requentadas ou manipuladas, a briga com o sono. Como se a mala fosse ela mesma e as coisa que ainda permaneciam nela significassem seus sonhos, sua alegria, sua vontade de ser feliz!


