Desde 2006 servindo algumas lasanhas e muitas abobrinhas.

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Dona Mariquinha

Dona Mariquinha era uma mulher muito temente a Deus. Muito religiosa, mesmo! Pode perguntar ao padre Raimundo: Dona Mariquinha, desde novinha, não era mulher de perder missa ou faltar com os trabalhos da comunidade.

- Se cada um fizer a sua parte, Deus não irá faltar com a Dele! - repetia.

Acontece que sua casa ficava justo na rua às margens do Rio Suçuarana, que contornava sua pacata cidade. E perto dali, já há alguns anos, foi construída uma barragem na cachoeira rio acima. Isso até que era bom, pois na estação das chuvas o rio não enchia mais tanto.

Mas a obra do homem é imperfeita, né? Justo num toró, duas comportas da barragem não agüentaram a pressão da água e TCHIBUM... Foi aquele mundaréu de água rio abaixo.

Foi um “Deus me acuda!” literalmente. Dona Mariquinha se ajoelhou no pequeno altar que mantinha no quarto e dali oração para Deus segurar as águas que a essa altura já começava a invadir a entrada da casa.

- Mariquinha, mulher! ‘Bora logo! – gritou Totonho, seu marido.

- ‘Bora pr’onde?

- ‘Bora fugir que o aguaréu ‘tá vindo! ‘Bora prá parte alta da cidade que aqui não vai dar jeito, não.

- Que homem de pouca fé é você! Se diz tão católico e com essa pouca confiança em Deus. Ele não há de nos faltar! Se junte a mim no Terço.

-Mas, Mariquinha... Você reza no caminho. Vamos, mulher!

- Deus está vendo essa sua falta, hein? Vá você com sua covardia que ficarei aqui com minha fé.

-Mas, mulher...

Totonho acabou fugindo prá parte alta da cidade e Dona Mariquinha ficou, rezando, já com a água chegando ao quarto onde estava.

Algum tempo depois, ouviu alguém gritar:

-Ainda tem alguém ai?

- Eu estou aqui, na Graça de Deus. –gritou de volta.

Seu Vicente entrou de canoa e tudo, encontrando-a empoleirada no em cima do guarda-roupa com a imagem de Santo Antonio nos braços.

- Ô vizinha, o que está fazendo ai? Inda bem que algo parecia me dizer prá vim prá esses lados. Ainda muita água ta vindo. Faz o favor de vim comigo que a sinhora levo prum lugar mais seguro.

- Muito obrigada ao senhor, mas vou ficar aqui. O lugar mais seguro que existe é com Deus e eu estou com ele. Eu que fui uma boa cristã minha vida todinha, não hei de ser abandonada agora. Deus, que tudo pode, irá proteger meu lar e a mim!

- Mas vizinha! A senhora tem que sair daqui. Minha canoa é humilde, mas faz medo não. Melhor que ficar ai. A senhora faz o favor de vim que eu te acudo.

- Não preciso ir a lugar nenhum, pois quem bem sabe do quando fui e sou uma boa católica é Deus. Apesar de não ter virado freira, eu me dediquei ao próximo. Então agora minha fé não vai falhar e Deus me dará o livramento!

Não adiantou Seu Vicente gastar o latim, pois cerca de 20 minutos depois ele remou para fora da casa sem a Dona Mariquinha que não queria sair por nadica desse mundo. Ela insistia que tava protegida por Deus.

Como se não bastasse a água que descia da barragem, a chuva apertou. Seu Totonho, coitado, pedia que alguém fosse lá acudir a esposa. Mas quem disse que acreditavam que ela ainda tava lá? Só quando chegou o Seu Vicente que acreditaram no homem. E agora e agora e agora? Como iam arrancar aquela mulher de casa?

O padre Raimundo até quis ir até a casa na canoa, mas o impediram. Seria uma sandice alguém querer descer! Pois veja que Dona Mariquinha morava justo na margem do rio. Quer dizer, agora tava bem no meio daquele mundão d’água.

Mas num é que vinha um helicóptero da polícia da capital, auxiliando nos resgates? Quando sobrevoavam aquelas casas imersas na água, viram uma senhora ajoelhada, agarrada numa imagem de Santo Antonio, em cima de um dos telhados. Sim, era a Dona Mariquinha.

-Oh, coitada! Deve todo mundo ter fugido e esquecido a velha prá trás. – comentou o piloto.

De pronto jogaram uma escada de corda e um dos policiais desceu para auxiliar a senhora no resgate. Mas quem disse que Dona Mariquinha queria ir?

-Não, muito obrigada, mas não preciso ir. Minha fé em Deus é grande e Ele me dará o livramento e nada acontecerá comigo.

- Minha senhora, este local está perigoso. A água está descendo e logo todas as casas ficarão embaixo d’água.

-Você não tem fé em Deus, não?! Pois eu tenho sei que ele dará ordens para proteger aqueles que acreditam Nele. Nada de mal irá me acontecer. Eu vou ficar aqui louvando a Deus!

O policial e a Dona Mariquinha começaram a discutir. “Que velha teimosa! Deve já estar gagá.” Depois de muito trelelê, o policial decidiu levar a mulher por bem ou por mal. Afinal, seu dever era salvá-la independente de seu estado mental. Pois Dona Mariquinha começou a querer fugir do homem e começou a correr pelo pequeno telhado. Só que uma telha quebrou, Dona Mariquinha caiu quebrando as demais e ela acabou indo prá dentro da casa submersa.

Bem, ela morreu e como realmente sempre foi uma mulher muito devota e boa, foi para o Céu.

Mas quem disse que Dona Mariquinha estava satisfeita? Ela tava uma arara!

- Como Deus pôde me abandonar justo na hora que mais precisei Dele? Eu sempre fui uma mulher muito seguidora dos Seus mandamentos. Prá que? Prá morrer assim? Desassistida? Deus não podia me dar uma paga dessas! – reclamava.

-Não. Deus me deve uma explicação! Quero falar com ele!- decidiu.

Tanto encheu o saco dos anjos e dos Santos, especialmente de São Pedro, que não é que acabou conseguindo uma audiência?!

Nem bem os portões celestiais sem abriram, Dona Mariquinha já entrou reclamando:

-Mas, Deus! Como pôde fazer aquilo comigo?

-Aquilo o que Mariquinha, minha filha? –falou pacientemente.

- Me abandonar para morrer daquele jeito! Justo eu que desde criança seguir seus mandamentos, nunca faltei aos meus compromissos na paróquia e na comunidade, casei pura, criei meus filhos e meus afilhados nos mandamentos da Igreja, fiz trabalho voluntário...

Durante bem uns quarenta minutos Dona Mariquinha falou sem parar, falando o quanto foi uma boa católica, o que fez e Deus não atendeu suas orações de proteção e livramento durante a enchente.

- Mas eu te atendi, Mariquinha! Eu mandei seu marido ir te buscar no quarto, mas você não quis ir. Enviei uma canoa para te levar para fora daquela enchente, mas você não quis ir. Desviei um helicóptero de sua trajetória para ir te resgatar, mas você acabou fazendo uma confusão e não quis ir. O que mais você queria que eu fizesse para te proteger e te livrar daquela situação?

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Eu sempre conto essa estória, aprendida há muitos anos e todo modificada pelo tempo, aos meus alunos do Noturno, quando começam a dizer: "Se Deus quiser, eu aprendo." "Se Deus quiser eu vou passar de ano." "Se for a vontade de Deus..."

Muitas vezes, Deus quer, mas é necessários que nós façamos a nossa parte.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Feliz natal!

E prá ficar mais feliz, ao som do (lindo) Julian Casablancas (The Strokes).



Tradução do letras.terra :

Eu Queria Que Hoje Fosse Natal

Eu não me importo o que os vizinhos dizem
O tempo de Natal está perto
Eu não me importo o que alguém diz
O Natal é cheio de alegria
Tudo o que sei é que o trenó do Papai Noel
Está fazendo o seu caminho para o EUA
Eu queria que hoje fosse natal

Eu queria que hoje fosse natal
Eu queria que hoje fosse natal, oh, oh

Tudo que sei é que o Papai Noel
Não se preocupa em quebrar ou aplicar leis
Eu queria que fosse, queria que fosse,
Queria que fosse, queria que fosse, oh

Eu não me importo sobre ninguém
O Natal está quase aí
E eu não me importo com o que o homem das notícias disse
O Natal é cheio de alegria
Eu não me importo com nada
Exceto ouvir os sinos de trenó a'ring-a-ding, ding
Eu queria que o Natal fosse hoje
No bom e velho E.U de A

Eu queria que hoje fosse natal
Eu queria que hoje fosse natal, oh, oh

Papai noel trazendo felicidade para os meninos e meninas
Em todos os cantos deste mundo louco e ignorante
Eu queria, eu queria,
Eu queria, eu queria,

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Mal-assombrado


Seu coração disparava quando sua mãe a conduzia pela calçada em frente daquele casarão. Abandonado, sua fachada descascada estava preta e via-se os pátios externos tomados pelo mato.

Mas, em sua fértil imaginação, não se encontrava desabitada. Era mal-assombrado. Aquele era o lar de todas as bruxas, monstros e fantasmas das histórias que ouvia da professora, da mãe e na TV.

Mesmo já adulta, não podia deixar de pensar naquele casarão quando lia alguns contos de Edgar Allan Poe.
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Estava em plena época de guerra contra a acne.

Sua melhor-amiga-para-sempre não apareceu no playground durante todo o fim-de-semana. Resolveu interfonar. Nem foi preciso, o porteiro lhe contou do falecimento do pai e da viagem de urgência da família.

Algumas vezes foi fazer companhia a sua amiga, já que esta não via mais graça em descer. Não se incomodava com as lágrimas, nem com as velas ou as janelas sempre fechadas e cortinas cerradas o que deixava o ar morno e úmido. O que a aflingia eram os sons de passos quando estavam todos quietos, as luzes que se acendiam ou apagavam sozinhas e aquela sensação de estar sendo observada por mais alguém.

Sempre tinha a impressão que se voltasse àquele apartamento, ia ver um fantasma.

Foi deixando de ir.

A amiga se mudou após alguns meses.

Nunca mais se falaram.
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Casarões abandonados e lares onde um dos moradores acabou de falecer são alguns dos lugares esperados para se ver fantasmas.

Mas em um homem? Aquilo foi inesperado. Mas ele era definitivamente um homem mal-assombrado.

Assombrado por um relacionamento que ainda não havia acabado em seu coração e sentimentos, por mais que dissesse o contrário.

Dessa vez, não fugiu. Escolheu enfrentar.

Nadou contra sua própria correnteza para tentar descobrir os peixes do fundo das águas.Emprestou seu ouvido, empregou sua paciência e tempo. Se enganou, sabendo que estava sendo enganada por si própria. Ela queria se enganar!

Mas sempre a assombração aparecia, arrastando correntes, derrubando copos, trazendo ventanias e confusão ao seu mundo.

Ele era um homem mal-assombrado.
Ela desejava ser um fantasma.