- Alô!- Alô! É a Helenice?
- É sim.
- Aqui é a Dolores! Nunca mais ligou, hein? Tô ligando pra saber de você, das novidades, da Mércia.
- Tá tudo indo...
- Indo na Graça de Deus, não é? Então, me conte as novidades!
- Sabe quem se forma quinta-feira que vem?
- Quem?
- Milena, a menina do primeiro andar. Não sei se você lembra dela, Dolores. Mas ela foi criada junto com Mércia, mesma idade. Odontologia, na Federal. Imagina no orgulho da mãe, 23 anos e formada em Dentista! Deve ser tão bom ter uma filha tão aplicada e inteligente assim!
- Não fale assim, Helenice! Você tem Mércia e ela também é muito inteligente.
-Mércia é inteligente quando ela quer! Eu tenho minha consciência tranquila que dei o estudo melhor que pude à ela. Muito superior ao meu! Porque você se lembra que em nossa época não tinha essa história de colégio particular, curso de inglês, de computação como essa garotada. Você tinha que se contentar com escola pública e pronto!
- Mas temos que lembrar que na nossa época a escola pública que era boa! Mas aqueles foram outros tempos, Helenice.
- Pois é! Mas o fato é que eu me matei de trabalhar pra sustentar esses estudos todos. Você faz idéia de quanto eu gastava com material e livro? E toda hora um trabalho ai dali cartolina, xerox, pesquisa, pedir a vizinha pra usar um pouco o computador...
- Mas é a nossa obrigação de mãe!
- Não! Obrigação era educar, dar comida e pôr na escola, já servia a municipal mesmo. Eu fiz mais que a minha obrigação! E prá quê? Prá quê tanto dinheiro gasto? Prá Mércia não passar em nenhuma universidade pública que é a boa! Nem a Federal, nem a Estadual. Nada! E olhe que na verdade eu fazia questão de no mínimo uma praca de "doutora". Já que eu não pude me formar médica, Mércia tinha que me dar esse gosto de se formar ela!
- A menina tem que estudar o que ela quer seguir!
-E o que ela quer seguir, Dolores? Por que eu já não sei mais! Já tentou Jornalismo, Biologia, História, Letras e nada! Já até abri mão de Medicina! Por tanto que ela faça uma pública, pode ser a Federal ou a Estadual mesmo. Eu já avisei: a obrigação dela é passar numa pública por que condições, boas escolas eu dei! Se ela quiser cursar numa particular ela que vá trabalhar e pagar com o salário dela!
- Mas ela não trabalha, Helenice?
- É, trabalha! É balconista de uma farmácia aqui no bairro. Vê se eu me esforcei tanto pra ela acabar virando balconista de farmácia? Mas se é a vida que ela quer... Uma moça que teve as oportunidades da vida, vai acabar assim, num balcão de farmácia!
- Não fale assim de sua filha, Helenice! Ela vai arranjar um emprego melhor! É que hoje em dia não é fácil encontrar emprego assim, como quando nós éramos mocinhas.
- E ainda mais sem um diploma, né Dolores?
- Minha irmã, dê tempo ao tempo! Quem sabe um dia em breve Mércia apruma o caminho da vida dela. Ela é jovem, tem só 23 anos, muita coisa ainda pela frente. E você não pode ficar nesse negativismo em relação a sua filha, mulher!
- Eu não sou negativista. Muito pelo contrário, eu sempre tive muita fé em Mércia e olha só o resultado de tanta fé, de tanto investimento! Eu sou é realista!
- Você tá assim com um tiquinho de tristeza porque a menina ai do seu prédio tá se formando e a sua menina não. Mas você tem que confiar que logo será sua oportunidade!
- Assim espero! Bem, Dolores. Eu preciso agora dar uma passada na costureira porque encomendei um vestido pra formatura. Vou pelo menos aproveitar a formatura das filhas dos outros.
- Ai, ai, ai... Vá, então! Mas não fique assim que não é bom nem pra você, nem pra sua filha!
- Mércia tá nem aí! Tchau!
- Tchau! Se cuide!